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Dicionário de Artistas

A arte contemporânea como ponto de partida; a literatura pega nela e vai indo sem olhar um segundo para trás; calcula-se o vago ponto zero – o nome de um artista, uma obra – mas tudo o que vem a seguir existe nesse texto que começa a pensar pela sua própria cabeça.
Um texto tem cabeça e é com ela que o texto pensa.
Basta um indício visual para a linguagem se pôr a caminho e avançar por veredas estreitas e desvios a pique, subidas e descidas.
Interessa-me isto: a arte que se vê como modo de emitir por trás de si uma linguagem que é necessário extrair do solo da própria obra à força. O olhar de quem escreve faz isso: o que vê transforma-se em palavra, mas há neste começo claro, – as obras de arte contemporâneas – uma potência que conduz o texto por dentro. Sem este começo – a arte contemporânea – não haveria estes textos.
Este Dicionário de Artistas, este Museu, parte de um pormenor, detalhe ínfimo ou centro centralíssimo, da obra de um artista, nunca da biografia, e daí o texto vai para outro local qualquer.
Como um animal que tem fome parte do ninho para um ponto onde pressente o alimento, assim parte o texto à sua vida.
Mas nada de didático ou explicativo, os textos deste Dicionário são seres autónomos que saem à rua livres e bem sozinhos depois da meia-noite. – Gonçalo M. Tavares

52. O dia: sofrer e esperar

dedicado a Sam Taylor-Wood

 

 

 

 

Do lado de fora do dia – um homem – como se o tempo tivesse um interior e um exterior.

Esse homem olha como um louco ou como alguém que exagerou na lucidez. E aquilo que é olhado, essa coisa, chama-se dia.

Porém, ninguém pode estar vivo e olhar para o dia ao mesmo tempo. A existência é incompatível com certos postos de vigia. Não há torre humana que tenha o céu como elemento vigiado.

A metafísica escorrega como vinho pelo interior do corpo: exultam as células, os ossos, todos os sistemas de funcionamento simultaneamente animal e não animal. Os animais não fazem túmulos devido à incompetência das mãos, não por insuficiência religiosa. A metafísica é universal como o oxigénio e a lei da gravidade. Tudo tem o indispensável para criar deuses: o medo, eis o indispensável. Certas espécies, porém, além do pavor, têm engenharia e cálculos, modos técnicos de fazer casas imponentes para albergar o divino e as suas circunstâncias.

Os bem organizados cemitérios dos humanos são uma prova de superioridade técnica, não de superioridade no sofrimento ou na compreensão deste. Tudo o que existe é portador da mesma quantidade de metafísica, como se algures, lá atrás, tivesse ocorrido uma distribuição aritmética e contabilisticamente inatacável. Tudo sofre e tudo espera.

 

51. Casas, Luz, Vento

dedicado a Andreas Slominski

As casas cortadas em pedaços para que a possibilidade de descansar não exista. Se não existir espaço para o homem se deitar, o homem permanecerá em pé.

Mas há também a luz, que sendo um elemento impessoal e sem nome ou forma, é coisa importante, porque é, no que vemos do mundo, uma espécie de febre que por aí anda e não nos toca, um vento mais lento e claro que vem do sol e fica.

Por que não pensar ser possível um vento como a luz, um vento que ficasse num metro quadrado de terreno, imobilizado, como quem exibe o gosto de estar no sítio onde está? A luz existe em cima de uma estaca – e pousa o seu acampamento nos momentos em que nada cobre o sol. O vento, pelo contrário, é, na natureza, uma das suas partes telegráficas; uma velocidade de cavalo, desnecessária por vezes.

50. A pobreza, a violência

dedicado a Santiago Sierra

Ninguém anda de mãos dadas com os insultos que lhe são dirigidos, porém há uma certa diplomacia na cidade, apesar de tudo: não se mata um homem no passeio de domingo, nem na missa, nem no momento em que recebe um prémio. Há certas obscenidades, ou, digamos, indelicadezas, que nem um assassino comete. Matar, sim, má educação, não.

Entretanto, homens desempregados fazem apostas sobre a cor da próxima nuvem e estão disponíveis como cãezinhos: o que querem de nós?

As amizades e outras invenções do humanismo só são possíveis acima de um certo limiar de pobreza, abaixo desse limiar não há crises filosóficas nem estratégias para dominar o erotismo, o que há é isto: uma certa brutalidade concentrada que pode ou não desenrolar-se para cima do mundo, como um tapete que alguém transportou de longe numa mala. Para a pobreza, o pássaro que canta é apenas um pedaço de carne. E aqui, neste instinto, não existe nenhuma falta de cultura. Apenas isto: o mundo está desequilibrado, e muito.

49. Sujidade

dedicado a David Shrigley

Quando o traço de escrita treme com uma certa lógica, e não apenas por causa da ventania do acaso, estamos perante uma caricatura.

Caricatura é o efeito de se saber exactamente a direcção do erro, o sítio onde o erro começa e pára, a grossura do erro, a intensidade. Porém, um erro dirigido por nós, um erro que cavalgamos, controlando-o, não é um erro, mas um outro percurso. Aquilo a que de início chamas erro, no fim chamas descoberta.

Um homem, um certo homem, suja as paredes com tinta que não pára no sítio previsto. Tudo o que é atirado, e não pousado, não pára no sítio previsto porque, em primeiro lugar, não há pré-visão, tudo é visto na altura; espontâneo, portanto. Sem final definido.

Sujar é mais criativo do que limpar, poderá dizer-se (é uma hipótese). Limpar é um acto que termina sempre com o mesmo resultado, enquanto há infinitas maneiras de uma sala ou de uma parede se sujarem. A criatividade é o conjunto infinito de formas de sujar a parede, a tela, as folhas e as pedras brancas do mundo. E etc.

48. Acertar

dedicado a Cindy Sherman

A mulher vista como matéria retalhável, assim mostram as imagens, bocados bem dispersos na mesa – mas é também um elemento com dedos longos disponíveis para a maquilhagem atenta. A mulher começa no chão e termina na cabeça e cabelo, que por vezes parece ser penteado pelo céu, outras vezes directamente pelo diabo.

A mulher partiu o prato onde Deus lhe queria servir a alma, e pediu a repetição do processo, pois ambicionava maior proximidade à bondade e também à maldade. Tão pouco não lhe chega.

Há, neste excesso, uma obscenidade: quando a mulher delira, a razão masculina treme como as muralhas de um castelo depois de um forte embate. A mulher não inverte a rotação dos astros – porque nenhum mamífero o consegue –, mas a mulher não pensa em inverter a rotação dos astros, enquanto o homem, pensa nisso, e deseja-o. Isto é: a mulher nunca falha tanto como o homem. Portanto: acerta mais.

47. Imagens, texto e tristeza

dedicado a Andres Serrano

Certas imagens lembram certos versos – e os versos não são elementos orgânicos que se movam como os cavalos; são elementos parados, como árvores na linguagem; árvores, sim, que também crescem, no mesmo sítio, mas lentamente; um verso cresce permanecendo sempre no mesmo local da página, crescendo assim em quem o lê, espantado, pela primeira vez, pela segunda, pela terceira, pela quinta vez.

Certas fotografias paradas têm, então, o movimento de certos versos, também parados. E há, em algumas imagens, uma densidade que mede a curvatura da tristeza humana e animal com um qualquer instrumento desconhecido e impossível de descrever, mas exacto. A curvatura da melancolia começa na imagem que vemos, e termina depois no coração, órgão principal da inteligência e do choro.

A tristeza de alguém é incalculável quando vista de fora, como uma equação estranha que o melhor dos matemáticos não soubesse agarrar. Imagens e versos ajudam por vezes a entendê-la, mas sim, é uma equação informe: a tristeza dos outros.

46. As mãos

dedicado a Richard Serra

A mão é um elemento que abre e fecha como uma vulgar torneira. É um elemento que agarra ou deixa cair como uma vulgar pinça. E a mão bebe: a água pousada sobre ela perde quantidade para um sítio que não se sabe exactamente qual é, mas será um buraco, um espaço vazio que se torna receptor, como um copo. Se fossemos minuciosos na medição das quantidades que se perdem na mão atenciosa que segura a água, veríamos: a mão bebe.

E há também as múltiplas maneiras de a mão raciocinar: não fala, mas pensa (nos mudos fala), e desenha e escreve. E faz.

Sem mãos o homem seria apenas um animal falante. Não poderia fazer o que diz. Poderia apenas dizer o que os outros fazem. Não seria o rei da Criação, seria apenas o Imperador do Discurso.

45. Vigilância e presente

dedicado a Julia Scher

A vigilância é um processo de duplicar o olhar ou de tornar o olhado importante. Vigiar é fazer do vigiado uma coisa com significado. Um significado secreto, escondido, que importa investigar.

Vigiar é um ver que investiga; é um ver que castiga, se necessário.

Ninguém dirá: não mereço que me olhes tanto. Mas esta frase poderá ser dita: não suporto que me continues a olhar!

As televisões são caixas que guardam coisas olhadas. Caixas de vigilância pacífica. Podes vigiar sentado, descontraído; vigiar como quem vai adormecer.

Mas a televisão que não mostra imagens em directo não é uma caixa, mas um caixão de imagens: imagens em diferido são imagens mortas. Tudo o que já aconteceu não é perigoso, só o presente te pode assustar.

44. O grande intervalo

dedicado a Gregor Schneider

Um resto que surge no meio do espaço limpo. A morte é assim: está a mais no percurso de quem existe.

Ninguém é educado para dar atenção aos vestígios, a não ser os detectives e certos poetas que têm como qualidade única (e basta) esta: a de abrirem mais os olhos quando os outros os fecham.

Estar diante do sol que faz mal aos olhos e do vestígio que é o seu inverso – porque é símbolo do apagamento, da coisa que foi escurecida – tais situações podem exigir, por vezes, atitudes semelhantes. Olho de frente para o sol e para os vestígios – e a inteligência trabalha.

O corpo morto que está caído pode não estar morto. Talvez seja apenas um intervalo.

43. Esperar é enfraquecer

dedicado a Pipilotti Rist

Uma mulher avança pela cidade e parte vidros. As ruínas recentes são prova da vitalidade do mundo, não da decadência. Os vidros partidos impõem compromissos à cidade, não são um monólogo material. O perigo que eles representam quando espalhados pelo passeio faz com que os humanos actuem.

O perigo é, pois, o momento em que os dedos dos pés se mexem com mais clareza: uma certa exactidão surge apenas na pressa, na urgência. Quando existe muito tempo para fazer, o corpo pode ser lento, isto é: pode guardar um intervalo entre a causa que a realidade lhe coloca à frente e as acções que lhe são exigidas. O intervalo, qualquer que ele seja, é uma espécie de diluição da força. Só a reacção imediata transporta a intensidade máxima de um organismo. Esperar é enfraquecer.

42. Mesa e pontaria

dedicado a Charles Ray

Uma mesa sem tampo que segura os objectos por cima, tal como deve ser, aliás; isto é: como se o céu tivesse ao seu dispor pinças capazes de impedir a queda das coisas. Se a mecânica industrial não funciona que pelo menos o céu faça o que deve ser feito, alguém murmura.

E a inteligência transforma: é uma máquina de inquietação, o cérebro. Para alguns, porém, é apenas uma máquina de continuar quieto. Um modo repetido de olhar para o mundo quando ainda não se adormeceu.

Enfraquecer uma mesa atacando-a por baixo, pelos pés – serrando um deles, por exemplo – ou por cima, pelo tampo: fazendo um buraco. Mas atacar por baixo é cobardia.

Também se pode atacar uma mesa por cima através de um avião bombardeiro. Uma certa perícia será exigida, no entanto, a quem guia o pássaro das bombas.

Falhar nesta situação exige maior crueldade que acertar: eis a estranheza infiltrada no matador metálico que voa. Acerta na mesa, não nos humanos que rodeiam a mesa – eis a pontaria mais humana.

41. Tecnologia e tempo

dedicado a Nam June Paik

Cada tecnologia é ameaçada pela ciência que prossegue. O metal não se liga à História de maneira firme, há mesmo uma certa moleza fraquinha, incapaz de segurar um único minuto ao espaço. E o tempo avança, como se apesar de mais antigo fosse, afinal, uma tecnologia de motor actualizado por cima de todas as capacidades mais recentes.

Impossível medir o tempo: a fita métrica existente é sempre curta, como se faltasse a parte final.

E as televisões nunca dão em directo a alma.

40. Mundo e corpo

dedicado a Gabriel Orozco

Os objectos desaprendem a sua própria forma como se esta fosse apenas mais um elemento da memória; esquecendo-se a forma ela desaparece, dilui-se como um líquido metido dentro de um líquido mais poderoso: o mundo.

Os objectos estão a morrer: se as pessoas perderem as funções os objectos tornam-se paisagem: coisas para serem vistas e não para serem úteis.

Um carro emagrece como se consequência de uma maldição. Um carro capaz de chegar ao ponto de ser uma máquina para ninguém: ocupa tão pouco espaço que já não tem funções nem necessidades.

Receber é contemplar activamente o mundo, é dar ao exterior a possibilidade de entrada.

Uma pancada certa no ponto certo do mundo faz deste uma parte do nosso corpo. O mundo é uma parte do nosso corpo.

39. Interferir no mundo

dedicado a Henrik Olesen

Palavras sem esconderijo são todas aquelas que são escritas; o pensamento, esse, é a casa escura onde milhares de palavras aguardam talvez o século seguinte para se tornarem elementos disponíveis frente aos olhos ou ouvidos. Não se vêem os pensamentos, mas vêem-se as gerações posteriores aos pensamentos. O pensamento é o econderijo.

Interfere no mundo: de olhos vendados tens permissão para seres desastrado nos gestos e na leitura; mas interfere (depois de tirares a venda): evita o erro solúvel no espaço; opta, sim, por esse erro que deixa resíduo, resto que perturba e condiciona as tuas acções seguintes.

Escrever em cima da Natureza é possível. E a Natureza por vezes também escreve, à sua maneira, por cima dos Homens: eis uma definição possível de um terramoto.

Enquanto puderes ver, vê. Mas avança também.

38. Laranjas

dedicado a Paul McCarthy

Laranjas cobertas de sangue tornam-se um fruto, não da árvore, mas da arte. Toda a violência que não magoa poderá ser considerada artística, mas esta ideia pode, por ela própria, transformar-se numa violência que magoa.

Líquidos mal-educados espalham-se pelo espaço, perturbam os objectos porque os mancham; um líquido que mancha o sólido útil com um indício de violência funciona como um instrumento de corte. Uma mancha é um corte que não corta, porém tem psicologia idêntica às amputações simples.

Objectos manchados por líquidos (como a urina, o sangue ou o esperma) tornam-se orgânicos. Mobílias humanas sangram no canto da sala e interferem assim nas declarações pacifistas dos melhores homens.

A realidade pode sangrar; e tal facto é uma novidade que não nos torna mais felizes.

37. Terra

dedicado a Walter De Maria

A terra é uma obra de arte quando rodeada por matérias técnicas e espirituais. Porque assim é tornada rara, e fica o centro.

Instintiva e desprovida de mecanismos, a terra conhece o abecedário mais antigo. Cresce e muda de forma, de acordo com a vontade efémera do exterior. Mas é firme, paciente. Foi compreendida pelo sol. Sabe que, enquanto a luz do topo for indiferente à excitação que o progresso em ninharias provoca na cidade, ela – a terra – ainda pertence à 1.ª divisão dos elementos, enquanto o homem permanece na 2.ª.

Combinar uma certa indolência da terra com os preços contabilísticos da arte de mercado é uma tarefa bela e má, mas sobretudo irrepetível. Não se trata de vender matéria ao quilo, pelo contrário, na arte admira-se a leveza improvisada. Se um edifício cair é um desastre da engenharia, se voar é a invenção de um bom artista.

Junto à maçã podre que caiu de uma árvore há por vezes mais circulação de ideias no ar que num congresso de homens ilustres que se esqueceram de abrir a janela. O ar e a terra. E etc.

36. Os pensamentos, e etc.

dedicado a Piero Manzoni

Tudo é colocado em recipientes, excepto essa massa a que ninguém pode chamar orgânica e que os vulgares palradores dos bares ou frequentadores de bibliotecas designam como: pensamentos. Não são elementos materiais onde o cientista possa colocar uma etiqueta, e mesmo o próprio cérebro não pode ser visto como uma caixa egoísta que esconde do olhar curioso os espantosos raciocínios de um ser vivo; os pensamentos não existem se existência significar ocupação de espaço – propriedade, no fundo, mesmo que efémera, de um terreno do mundo.

Imaginar alguém que vende todas as acções do organismo. Hierarquizar actos é recusado, tudo tem o mesmo valor; tudo o que é feito por Picasso é feito por Picasso, e o organismo é antes de mais uma coisa que para sobreviver não fica parada: age; isto é: respira, alimenta-se, faz funcionar os sistemas e órgãos de vida; e mesmo este funcionamento básico tem um estilo: a respiração pulmonar de Picasso ou de Manzoni leva a marca individual: a respiração e as indisposições musculares são privadas, não são bens comuns nem actos colectivos: são obras. Ou quando muito: pressupostos das obras artísticas. Ninguém pode surpreender artisticamente o mundo se antes não fizer a obra que a natureza colocou como fasquia mínima: sobreviver. E por isso todos os instintos necessários para um artista sobreviver são artísticos. Claríssimo.

35. As peças

dedicado a Sarah Lucas

Certos pensamentos substituem uma parte de um objecto por uma parte de outro objecto. A tal operação, cujo efeito umas vezes é chamado de desastre, outras vezes de criatividade, sucede-se outra: apontar aquilo que é espantoso no meio daquilo que é normal.

Também existe a técnica da sugestão. Evitar concluir ou mesmo desenvolver para que quem vê desenvolva e conclua. Há, de facto, trabalhos a fazer. Tarefas que se não forem feitas por alguém ficam abertas, como um vírus doente que não tem nenhum organismo próximo para atacar.

Começar materialmente uma ideia, eis a primeira fase. Depois interromper, suspender: eis a segunda fase. Depois inaugurar uma exposição de suspensões (isto é: de ameaças). Eis a síntese: não acabar de fazer uma obra ou não acabar de fazer uma ideia (as ideias são coisas que se fazem) é acreditar na inteligência do espectador.

É isto: uma ideia tem várias peças, como uma máquina. O que deve fazer quem as faz e depois as exibe? A resposta: há peças que naturalmente faltam; não precisas de fazer nada.

Trazes a roldana decisiva para fazer funcionar a minha ideia? Se não trazes, não entres. Não mereces ser meu espectador.

 

34. Armazém

dedicado a Sol LeWitt

As ideias são elementos que podem ser destacados da matéria. Isto é: os armazéns para ideias são mais económicos por metro quadrado do que qualquer outro armazém. Uma única ideia, se for desenrolada, decomposta nas suas partes físicas, poderá dar origem a um Império concreto: casas, fábricas, movimentações invulgares de máquinas e existências múltiplas. Uma ideia é isto: energia concentradíssima.

E há técnicas para dividir o invisível, técnicas que só certos artistas e alguns profetas dominam. E porque o invisível deixou de ser objecto de estudo da ciência, outros meios de agir puderam aproximar-se daquilo que não se vê e mesmo daquilo que não existe. A Verdade deixou de ser o objectivo único; fortaleceram-se então as técnicas de inventar e, agora, avançar no mundo passou a ter mais caminhos e a ser mais rápido.

33. Organismos

dedicado a Oleg Kulik

Animais que nos distraem da flor e dos traços abstractos de certas pinturas, porque o medo apenas vem do concreto, do orgânico, daquilo que pode morder – e o medo exige atenção.

Da direita para a esquerda apreciamos diversos reinos: as plantas silenciosas, mas nada românticas, que com as raízes sujas encostadas às toupeiras tramam ataques clandestinos às raparigas ingénuas e às suas declarações de amor; e depois ainda animais e homens repelentes, uns e outros que, após uma explosão, confundem-se numa massa preta onde existe um sofrimento comum, como se dali nascesse um coração único: o sofrimento bate determinadas pulsações que todos escutam. A planta arrancada à terra sabedora, a terra sabedora atirada aos olhos do animal morto, e o homem que quer falar e só respira. Tudo o que é orgânico se mistura por fim na explosão.

32. Cores

dedicado a Jeff Koons

Tudo pode ser colocado num aquário e isolado do mundo, como se o mundo fosse interrompível e incluísse, nos seus elementos, o intervalo vazio.

Porém, o mundo não é um somatório de matérias: A+B+C. É uma coisa, sim, que foi lançada, empurrada. Tudo balança e nada é definitivo.

O somatório, pelo contrário, pressupõe estabilidade: o A é sempre A e o B sempre B; e a estabilidade pressupõe uma mentira ou uma cegueira. A matemática nasce disto: de uma mentira compacta que, por se repetir, estabilizou. Mas nem a matemática é estável nem o objecto da matemática é estável.

Claro que há ainda esculturas de cores fortes. Esculturas que se tornam fortes não pelo seu elemento base – a forma – mas pelo elemento base de uma outra arte: a pintura. Escultura de cores fortes e pintura de formas intensas. Eis uma troca benigna.

Os pontos de exclamação na existência nascem precisamente dos momentos em que se vê o já antes visto num outro sítio, num sítio errado. Eis uma metodologia que mistura o susto, o espanto e uma certa capacidade para desenvolver um erro até ao seu limite. Avancemos, pois.

31. O verbo

dedicado a Milan Knížák

Biologia é tudo: até o pensamento – certos raciocínios que juraríamos abstractos, isto é: invisíveis e sem centro – até esses raciocínios são biologia: coisa física que muda.

Quando deitados sobre a terra (e nus) os corpos ganham uma imprecisão universal que os afasta da boa organização das cidades e os arrasta para uma massa única, ecológica e má. Estar deitado nu sobre a terra é desaparecer enquanto humano, é conspirar contra certas fórmulas que a ciência da física e da sociologia da amizade construíram, durante séculos. Ser humano, e muito, não é partilhar gastronomias e projectos com outros sujeitos, mas sim possuir uma bondade, ou maldade, mais raciocinada; uma maldade, falemos dela, que pode resultar de cálculos numéricos ou de excelentes fórmulas verbais repetidas em voz alta pelas multidões excitadas ou por um indivíduo isolado.

Digamos que, em relação às outras espécies orgânicas, o humano tem mais argumentos para justificar a sua maldade. Por exemplo, este argumento antigo e sempre actual: fui mau para vos salvar. Qual o outro elemento da natureza capaz de ser tão arguto verbalmente? Não há.

30. Números

dedicado a On Kawara

O mundo está cheio de datas. O tempo é um elemento material não farejável; ninguém o tocou porque não é tocável, mas foi transformado em números; outros elementos excluídos da realidade: sem peso, cor ou forma, eis os números. O tempo ter números significa dizer: o nada é assinalado por outro nada. Como se duas vezes nada fossem algo e não zero, simplesmente, e em grande quantidade. Zero em grande quantidade continua a ser zero. Ou não?

Na floresta, por exemplo, a ordem numérica desaparece: existe um certo caos e este não é temido, mas celebrado.

Os reinos animal e vegetal tornam obscena certa contabilidade humana que transforma três flores e quatro elefantes, em 3 e 4 e, após um somatório rigoroso e lógico diz: três flores mais quatro elefantes dá sete. Mas o mundo não é assim. O mundo é uma coisa que desobedece.

29. Delicadeza

dedicado a Tadeusz Kantor

Uma tendência para os homens parecerem mais próximos uns dos outros, como se em vez de organismos móveis fossem coisas paradas como as assinaladas nos mapas.

Porque à delicadeza poderás chamar medicina dos pormenores, medicina privada, individual, exercida por analfabetos técnicos, homens desprovidos ainda da terminologia que salva ou intimida, porque imprecisa e obscura, mas homens simples, que levantam o chapéu à passagem das senhoras, não cospem no chão ou nos outros cidadãos, não matam nem torturam mesmo quando atrasados para certos compromissos; homens dessa medicina mínima, não ruidosa, de gestos pouco amplos: a delicadeza salva mais – no quotidiano, nos minutos normais – do que um hospital bem organizado. Porque a delicadeza é constante, não é utilizada em momentos urgentes, mas sim nos momentos inversos, naquilo a que podemos chamar orgânica de passeio, urgência de lentidão; tenho pressa de parar, eis a correcta definição.

Kantor desenha nomes, escreve formas.

28. Utopias

dedicado a Ilya Kabakov

As ideias são gestos que ocorrem primeiro num sítio que ninguém vê, e depois saem, ou não, para a rua.

Tudo é veneno e tudo é medicamento. Trata-se no fundo de uma questão de tempo. Todas as matérias, apurando-se, dirigem-se para um destes dois destinos: veneno ou salvação.

Também assim com as ideias. Nenhuma ideia é neutra, tudo o que é iluminado será mais tarde aquilo que ilumina. Os elementos do mundo não desaparecem, escondem-se, desviam-se, suspendem-se; mas não desaparecem.

Kabakov coleccionou utopias que recolheu pela cidade. Como alguém que pede uma opinião política, Kabakov pediu uma opinião sobre a felicidade, sobre o modo de pôr a funcionar o progresso sentimental. Porém, a tecnologia amorosa continua a ser rudimentar. Amamos como na antiguidade clássica: isto é: começamos sempre com uma enorme esperança.

27. Cogumelos virados para baixo

dedicado a Carsten Höller

 

Cogumelos virados para baixo, desde o tecto, entopem a lógica de crescimento do mundo, como se a lógica fosse precisamente um tubo por onde as causas e efeitos circulam numa bela ordem há muito registada nos escritórios decentes. É evidente que a Causa e o Efeito já não são apenas um problema da Física, mas um problema moral. O efeito inacreditável em resposta a uma determinada causa não representa um erro científico, mas um erro moral: um pecado, portanto.

Mas isto é também a arte: fazer sob pressão. Imaginar mesmo este quadro: alguém tem de construir uma torre de legos debaixo da hélice de um helicóptero em funcionamento. Não pode levantar demasiado a cabeça, mas é necessário não deixar demasiado tempo a cabeça tímida e doméstica junto ao queixo e virada para o solo pois uma torre começa por baixo, pelo piso zero, mas depois cresce. Ser orgulhoso, evitando a decapitação: eis o fazer perigoso do artista.

Leitura por Ana Zanatti

26. Imagens e fé

dedicado a Gary Hill

Os homens estão frente à câmara de filmar como se pertencessem a uma raça cuja única função na existência é deixarem-se filmar. Estamos num novo mundo. Certos humanos não existem porque pensam, existem porque são filmados.

Mas vê os corpos: uma certa moleza material; gordura, dirá um homem de frases directas; mas também há espírito. A condição da matéria é esta: mostrar-se; a condição do espírito é esta: esconder-se atrás da matéria; melhor, dentro da matéria.

Mas a gordura que surge em certas identidades não é algo que interfira no sentimento religioso ou na aptidão para pensamentos abstractos como a matemática. A gordura é uma proporção de quantidades, a abstracção – e nesta, a fé – é uma proporção de vazios.

O Homem não tem apenas células, também tem medo. E certas imagens provam-no.

Leitura por Ana Zanatti

25. Imortais e catástrofe

dedicado a Andreas Gursky

Em certas imagens, o mundo está tão arrumado que o momento seguinte só poderá ser de catástrofe. Um erro, portanto, essas imagens.

Há, pois, na existência como que um instinto de defesa que as crianças bem conhecem: a ligeira desarrumação, o vulgar fora-do-sítio, são sistemas contra o imprevisto e contra a maldade. Se tudo está agora tão certo, como ter projectos, como ter futuro, como ter dia seguinte?

Ser imortal é deixar lucidamente algo fora do sítio. A raça de imortais, se tal existir, é a raça que ainda não acabou uma determinada tarefa. Uma raça desarrumada e desastrada, portanto.

24. Misturas e separações

dedicado a Thomas Grünfeld

Animais disformes, para quem ainda não viu nada, são apenas animais. O disforme é um conceito que chegou depois do conceito de forma.

As misturas de matérias são experiências no espaço.

A vaca com pernas erradas não é só a vaca que se dirige para o objectivo absurdo, mas também a que fica parada de maneira inexplicável. Porque é a imobilidade que ilumina as pernas. Podias andar e não andas e é quando não andas que percebemos que podias andar. A imobilidade é o anúncio da possibilidade de todos movimentos. De uma vaca parada até podemos pensar que voa. Quando ela começa a andar é que percebemos que não.

E depois há a limpeza do mundo; misturar e limpar, deformar e separar: eis os dois métodos de exercer violência sobre a matéria.

Não mistures, não sejas violento. Não separes, não sejas violento.

Leitura por Ana Zanatti

23. Amizade

dedicado a Douglas Gordon

Um artista insere lentidão na realidade, como se a realidade não fosse um elemento abstracto, mas sim algo fisicamente apontável pelo dedo indicador; com peso, altura, comprimento. E por isso também: velocidade. Tudo o que tem uma certa velocidade existe; a velocidade como prova de existência. Move-se, portanto, existe. E se a realidade existe, então poderemos fazê-la mais lenta.

Mas a um certo barulho chamas linguagem enquanto a outra perturbação, e a outra ainda: música.

Se soletrares o nome de todos os teus amigos, dispensando o coração das actividades exclusivamente fisiológicas, verás que a amizade poderá ser transformada num som.

Leitura por Ana Zanatti

22. Luz e diabo

dedicado a Nan Goldin

Em determinadas fotografias até as flores parecem ter ossos e padecer de doenças, magrezas, infelicidades.

Corpos nus exibem uma magreza inchada, um excesso triste na falta.

Não pode existir alegria enquanto uma certa claridade é lançada contra organismos como se fosse uma arma rude e não um elemento quase neutro que não guerreia ninguém. Luz colocada no lado do inimigo, como se o sistema de Deus não fosse apenas indiferente às doenças de certos homens, mas fosse afinal parte interessada no sofrimento, com uma avidez que denuncia a respiração disfarçada do diabo.

Leitura por Ana Zanatti

21. Vestido de noiva

dedicado a Robert Gober

Um vestido de noiva é no mundo das coisas materiais a operação inversa das ruínas de uma casa, tal como a sensação de projectar algo para o futuro é oposta à sensação de que tudo já terminou. O vestido de noiva é uma causa, um acontecimento que inaugura; as ruínas são um efeito, se fossem linguagem seriam o ponto final que quase encerra o livro.

Os séculos surgem rodeados por um muro; cada século tenta produzir acontecimentos que tornem incompatíveis os cruzamentos de um tempo com o tempo seguinte. Porém, há sempre uma perna que passa de um século para o outro, como se fosse um resto que, desprezado pelo século anterior, ganha, escondido, forças não imagináveis.

Vejamos, é como se existisse um ralo entre dois séculos, e aquilo que parece desaparecer num determinado tempo, surgisse mais tarde, noutro lado, com diferente intensidade. Aquilo a que chamavas água suja é conhecida agora como água sagrada.

Leitura por Ana Zanatti

20. Espaço e amor

Dedicado a Gilbert & George

 

O estar-parado-muito-tempo pode provocar no espectador mais movimento do que uma corrida de 100 metros. O que importa não é a velocidade do que se vê, mas a velocidade de quem vê. E a velocidade aqui não é uma componente física, mas uma componente dos argumentos sentimentais. Isto é: o coração balança de um modo primitivo, como há seis mil anos, e, no entanto, as mãos contactam com elementos do mundo bem mais organizados e inteligentes do que há uma semana. O Homem mudou do coração para fora; do coração para dentro: a mesma inabilidade e o mesmo entusiasmo. Apaixonado ainda, como um imbecil Homo Sapiens das flechas, o Homem vai de automóvel para o encontro marcado; a mesma paixão incalculável, mas mais tecnologia.

Quanto aos dois homens que falam de modo pausado e um de cada vez – como se fossem as duas partes da mesma frase – eis que a mesma circunstância – o mundo – os separa: essa catástrofe, que é o espaço, faz com que um corpo ao lado do outro possa por vezes ser admirável e outras vezes repugnante. O espaço permite a aproximação e o afastamento. Sem a noção de espaço estaria tudo no mesmo sítio, não haveria, portanto, distinções, separações: acabaria o amor: se nada está afastado de mim, como pode o meu coração (sentimental) funcionar?

Que Deus proteja aquilo que nos afasta.

Leitura por Ana Zanatti

19. Admirados e ofendidos

dedicado a Lucian Freud

Uma certa claustrofobia exibida pelos corpos nus e ao mesmo tempo: como se o eterno também pudesse ganhar gordura. Admiramos e sentimo-nos ofendidos.

Uma insegurança entra nesse facto aparentemente imortal que é: estarmos vivos. Trememos porque até aqui ignorámos a nossa morte como quem esquece durante anos um objecto minúsculo e inútil no fundo do bolso.

A moleza do corpo como o fim de um Império que também nos pertence.

E o cansaço. Os seres humanos parecem animais incapazes de, por exemplo, domar um cavalo ou até de construir uma casa.

Lucian Freud pinta uma catástrofe em matéria bem conhecida: envelhecer é isto, a força primitiva da juventude perdeu-se, o homem parece já não dominar uma qualquer sintaxe que dominou noutros tempos: uma sintaxe que relacionava as suas acções com as coisas do mundo. Envelhecer é entrar numa nova ignorância: o homem já não sabe agir; já não sabe matar, já não sabe fugir.

Leitura por Ana Zanatti

18. Plástico verdadeiro

dedicado a Sylvie Fleury

 

O mundo plastificado; máquinas com a utilidade estragada devido ao material impróprio. O funcionamento depende de estruturas que andam, não de estruturas que surgem para serem contempladas. Funcionar não é ser belo.

Tudo é boneco. Até a máquina má, como o tanque da guerra, pode ser um boneco que o exército inteiro manipula confundindo o instinto lúdico com algumas ordens da hierarquia, que dizem: mata! Matar é jogar com uma certa mitologia que aproxima a bala do coração indefeso.

E até o motor poderá ser plastificado. Porém, uma indústria -mesmo que produza o falso – precisa de ser verdadeira.

Vê a cidade e as conversas que nela se reproduzem. É isto, estão de igual modo ultrapassados: o Latim e a Verdade já não pertencem a este século.

Leitura por Ana Zanatti

17. Distorção emotiva

dedicado a Michael Elmgreen & Ingar Dragset

A arquitectura disponível para se afundar; como se um edifício inteiro fosse uma semente: sob a terra será mais útil às gerações seguintes.

A casa é instável quando a lâmpada que acende o tecto está escondida na cave. O alto e o baixo misturados como se pertencessem a um baralho de cartas ou como se fossem simplesmente duas faces de um dado que balança na mão direita do jogador. Se o alto está em cima e o baixo não, eis um acaso – a sorte assim o ditou – pois a realidade joga aos dados com os nossos índices geográficos.

Estar louco é não reconhecer aquilo a que a multidão chama alto e baixo, direita e esquerda, longe e perto. Distúrbios na medição do mundo, eis o que existe numa certa arquitectura que parece animada por um combustível inteligente; um modo de distorcer a fita métrica, que acaba por emocionar.

Leitura por Ana Zanatti

16. Olhos inchados

dedicado a John Currin

 

Os corpos são vistos a partir de uma lente de aumento. As formas existem debaixo de uma lupa, como se fossem formigas a quem se tem de dar atenção para distinguir e contabilizar as patas.

Os retratos são caricaturas dos rostos verdadeiros, mas poderás sempre dizer que os rostos verdadeiros não são mais do que caricaturas das caricaturas. O rosto de um homem é uma caricatura orgânica que falhou.

E os seios das mulheres avançam no plano como se não fossem partes do corpo feminino; pelo contrário: o corpo feminino é uma parte dos seios. Em termos de quantidades absolutas dir-se-ia que dois seios são mais do que um corpo (dois-um).

As pinturas de John Currin incham os olhos, instalam nestes uma atenção inflamada, um excesso de visão que quase quer deixar de ver para poder tocar. Mas os olhos são coisas antigas, e sem dedos. Apesar de tudo ainda existem.

Leitura por Ana Zanatti

15. Catástrofe ao longe

dedicado a Martin Creed

Fendas numeradas, isto é: numerar o nada, os sucessivos nadas, os milhentos buracos que existem num percurso simples dos olhos, e fazer dessa série uma matéria concreta, isto é: o longo somatório de zeros não dá zero, porém para o descobrir é necessário uma certa paciência, pois só no último zero se percebe que muitos buracos juntos (ausência de matéria) são aquilo a que chamamos catástrofe. Uma catástrofe é um somatório intenso, e excessivo, de zeros.

Porém, o mundo é vasto: frases de grandes filósofos podem ser escritas nas costas de um bilhete de autocarro; assim funciona a linguagem e a democracia instintiva do alfabeto. Os melhores versos escritos no dorso lateral das botas do senhor carrasco. Como a vida é bela, vista de longe.

Leitura por Ana Zanatti

14. Tempo e espaço

dedicado a Christo

 

 

 

Só os nossos órgãos, enquanto estamos vivos, não podem ser embrulhados. Tudo o resto sim, porque é acessível. Até o planeta Terra, pois já o conseguimos ver por inteiro, pode ser considerado um objecto e, portanto, coisa embrulhável.
Mas o tempo não. O tempo é outro assunto. Não podes embrulhar um minuto para o guardar em casa.
Eis o volume e a sua grande fraqueza: pode ser embrulhado.
Eis o tempo e a sua grande força: não pode ser embrulhado.
Embrulhar é cortar as ligações, é exibir uma amputação, assinalar ostensivamente os efeitos da acção da lâmina. Embrulhar é ser bonzinho depois de exercer a grande maldade. É proteger do frio e do olhar dos outros, com uma espécie de cobertor, uma coisa a quem eliminámos a hipótese de regresso a casa.
E uma história para crianças ingénuas: um homem embrulhou a guerra e levou-a para outro planeta. Mas o embrulho estava mal feito, tinha buracos. Caíram coisas, uma espécie de sementes. O mundo ficou à mesma com as guerras (as sementes cresceram) e livrou-se do homem bonzinho que foi para outro planeta com o embrulho.

Fim da história quase boazinha.

Leitura por Ana Zanatti

13. Mutilados e humanos

dedicado a Jake & Dinos Chapman

 

 

 

Os corpos mutilados são coisas que o diabo faz quando está irritado.

Também as misturas, os acrescentos disformes ao corpo, não são mais do que uma espécie de passeios de Domingo do senhor Lúcifer. Um corpo disforme é um jardim bem tratado para o Reino da maldade.

Mas a perversão é um produto que a humanidade mandou vir; como alguém que, com o dedo o ar, pede algo, sentado na mesa de um café.

Substâncias perversas e que inspiram nojo são aquelas em que a sua forma nos faz hesitar: é para beber ou comer?

Nem sempre as coisas são, do princípio ao fim, sólidas ou líquidas, e quando tal acontece está instalada a excitação do medo. Até aquilo que é banal tem no seu centro o monstruoso. Só precisas de estar atento.

Quanto ao corpo humano: foi um hábito que a Terra ganhou.

 

 

Leitura por Ana Zanatti

12. Movimentos, formas e pensamento

dedicado a Jean-Marc Bustamante

Gaiolas de um metal viril sobem até aos sítios altos para capturar pássaros, e descem aos sítios mais baixos porque suspeitam da existência de toupeiras.

As formas movem-se como se em vez de formas fossem movimentos. Ou então: são os movimentos que ficam fixos.

Mas certas formas falam. Estar parado não é o mesmo que estar calado. E mesma a coisa silenciosa e parada pode ter outras qualidades; por exemplo: a de ouvinte. Ou a de pensante. Pensar não pressupõe nem movimento nem discurso. É algo estranho, essa coisa: pensar.

Leitura por Ana Zanatti

11. Escritura e loucura

dedicado a Daniele Buetti

A escrita é um elemento sólido pois não é líquida, nem nada em si se aproxima do estado gasoso. A escrita é uma escultura, não é o despejar da água de uma garrafa para o copo.
E o corpo belo quando tocado por um sólido pode confundir esse toque com uma investigação amorosa. No fundo, o amor são dois corpos em estado sólido que se tocam.
Claro que escrever em cima de um corpo é um tocar apoderado pela lentidão. Porquê? Porque o toque fica, como se fosse um toque-monumento. Escrever sobre uma superfície é deixar nesta um certo peso; uma matéria que pesa e é interpretável: eis a escrita.
Mas o lado esquerdo da beleza, quando olhado com atenção, pode ser entendido como o lado direito da fealdade e, assim sucessivamente – o direito de uma coisa é o esquerdo do oposto dessa coisa – no mundo e na existência particular, até ao infinito. A realidade está encadeada como se fosse o efeito único da acção de um louco.

Leitura por Ana Zanatti

10. Forma e função

dedicado a Joan Brossa

 

Nenhuma arma que queira ser respeitada pode ser construída a tricôt, com tecido. A arma, pelo contrário, deverá ser uma coisa espessa, um material que quando pousado a certa velocidade sobre o inimigo o esmague, o triture, o faça desaparecer, se possível – como a diluição rápida do açúcar na água. Uma explosão é um processo químico de dissolução humana, que infelizmente deixa vestígios pretos: sujam o chão.

Vejamos: a função do artista é baralhar formas e funções, como quem baralha cartas. Eis as operações necessárias: primeiro separa-se a forma da função, da coisa 1, depois a forma e a função da coisa dois; e assim sucessivamente até às cem coisas. Desta maneira, o artista tem na mão, não 100 coisas, mas duzentas – forma e função de cada coisa vezes 100. Essas duzentas coisas serão então, como dissemos, baralhadas como quem baralha cartas. Depois tiram-se, ao acaso, pares. A forma 14 pode juntar-se à função 75.

E eis que está no mundo um novo objecto: o objecto único que tem a forma 14 e a função 75. Dizem: não é útil e é estranho. Outros dizem: eis que a poesia finalmente ocupa volume no mundo.

Um verso pode interferir em dois metros quadrados de terreno. E já é bom.

 

Leitura por Ana Zanatti

9. Líquidos do coração

dedicado a Marcel Broodthaers

 

 

 

Nem sempre os líquidos do coração circulam no mesmo sentido. (Até as máquinas sentem um certo nojo – tímido, é certo – em relação às repetições.)

Ter uma ideia é também interromper o trajecto habitual da intimidade: até o coração e os órgãos indispensáveis estão disponíveis para a mudança nos seus rituais. O corpo e o seu mecanismo respeitam os acontecimentos extraordinários e obedecem às suas condições como bons soldados obedientes. E ter uma ideia – quando ela é o que deve ser: uma surpresa para quem a descobre – é, de facto, um acontecimento fora do comum. E o coração não tem uma fisiologia tão teimosa que não possa, por exemplo, parar por um segundo, virar-se para o cérebro, e suspirar: ai, ai – como uma rapariga ingénua embevecida.

Uma ideia no momento certo afecta o museu parado em que algumas existências se transformam. E pode perturbar mais esse museu – que é o viver – do que sustos bruscos nos sentimentos. É assim: certos abanões do edifício lírico já entediam.

Cascas brancas de ovos não devem ser encostadas à madeira escura onde levam o morto. Porquê? Porque certas matérias e certas cores começam, e outras acabam; e o espectador fica desconfortável quando o mundo lhe surge indeciso, pois não sabe como agir.

Mas o agir a sério é assim: só aparece forte no meio do longo mundo indeciso.

Leitura por Ana Zanatti

8. Ponto mínimo

dedicado a Louise Bourgeois

Há fragmentos de monstros: uma 2ª monstruosidade. Um corte sobre outro corte não estanca a hemorragia, mas baralha-a: para onde corre o medo se abrimos centenas de portas?

Comportamentos belíssimos são conspurcados por um ponto mínimo; e quem vê só consegue olhar para o obsceno, esse ponto mínimo. Porque o mal não pode ser medido com os mesmos instrumentos do bem e da beleza. Digamos: um milímetro de mal ocupa mais espaço que cem metros de bondade cristã. O mal atrai a energia do espectador. Montado em animal rápido vem o mal; em mula velha e cansada chega o bem, com o seu discurso longo.

Escolhidos como favoritos, o instinto e a mistura. O que vemos parece ter ingerido uma doença, uma certa fraqueza espalha-se pelas esculturas e, portanto: não há aborrecimento; ver aquilo que é fraco sempre distraiu os povos e o indivíduo tonto.

Leitura por Ana Zanatti

7. Tristeza

dedicado a Christian Boltanski

Nem sempre a tristeza é uma massa informe de pensamentos que encostados a uma certa teimosia do raciocínio, que não avança para outros objectos, permanece, ali, no lugar vazio, dirigida para nada. Melancolia, dizemos.

Por vezes a tristeza é efeito de um outro modo de os pensamentos se movimentarem. Por vezes há uma causa concreta e um alvo bem definido e então a pessoa está triste como se está dentro de uma gaveta.

Os arquivos, por exemplo, são tristezas organizadas; melancolias por ordem alfabética.

A memória ou é utilizada para avançar mais rápido ou é tendência errada, irresponsabilidade da existência; distracção na e da vida. Existir é estar preparado para esquecer. Agir é uma tentativa física de esquecimento. E voltamos a agir porque não esquecemos completamente.

Mas vê: a morte atrai os vivos porque está mais à frente.

 

Leitura por Ana Zanatti

6. Conferência

dedicado a Joseph Beuys

 

 

 

 

Um certo chapéu que, quando ele – personagem – anda, parece ser afinal a parte mais baixa do céu, isto é: um elemento importante e natural. Como se fosse a tampa de uma caixa onde o inferno está guardado e também uma mitologia boazinha com gestos que sucessivamente salvam e alimentam. O chapéu, apenas ele.

Mas há também os pensamentos que por vezes são misturados com o perigo físico numa combinação que faz da existência uma gastronomia complicada onde o cozinheiro e o alimento ocupam o mesmo espaço no mesmo tempo. Estar vivo é cozinhar o mundo e estar vivo é pertencer ao mundo: como resolver esta equação? Sentado na cadeira e a cadeira és tu.

Ele explicava coisas: como se a matéria fosse desintegrada por associações de palavras mais ou menos sensatas, mas não. Uma pedra mantém-se na sua teimosia vitoriosa, apesar de o cientista repetir 100 vezes a sua fórmula essencial; como se a pedra fosse feita de diferentes peças como a máquina, peças que exibem uma afabilidade íntima que designamos de forma depreciativa: bom funcionamento. Mil conferências não bastam para explicar uma única pedra.

5. Nudez

dedicado a Vanessa Beecroft

As mulheres desnudam-se de uma maneira mais perfeita do que aquela com que permanecem nuas. O despir tem mais elementos do que o simples estar-despido (estado final).

É a diferença entre um processo e uma conclusão: um processo pode ter inúmeras conclusões. Enquanto uma conclusão tem esta quantidade: um.

As mulheres sentam-se quando estão fortes, ao contrário dos homens que se sentam apenas depois do combate. A mulher não precisa de se levantar para combater.

Há uma certa astúcia perversa na forma como a fisiologia feminina parece não interferir nas resoluções dos astros. Porque interfere. O que é causa e efeito entre a excitação erótica e uma certa inclinação de um planeta? As mulheres e as suas maldades interferem mais na astronomia do que os astrónomos. Estes observam, aquelas cobiçam e insultam.

Os astros são coisas sensíveis, de um nervosismo previsível, mas ainda assim físico. Certas posições femininas que se aproximam da nudez instalam a perturbação em coisas que o telescópio jurara nada terem de animal. Mas afinal sim.

Leitura por Ana Zanatti

4. Espanto

dedicado a Matthew Barney

Materiais moles exibem a segunda parte de um fenómeno de que ninguém viu o início. As mobílias parecem invadidas por convulsões, mas estes distúrbios estão suspensos. Como se fosse possível fazer a estátua de um corpo que cai, no exacto momento em que cai. Não podes fazer uma estátua sem base, mas podes pensar nela, ou então fazer batota nos materiais que a constituem. Uma estátua-balão, por exemplo.

Orelhas feitas para ouvir o que ainda não começou a ser som. Orelhas grandes. Uma disformidade localizada, deficiência que permite uma maior eficiência lateral: o aumento de um lado é a prova de que esse lado se espantou. O espanto é uma técnica. O espanto é o pressuposto da atenção localizada, do aumento das possibilidades. Estar espantado é estar pronto para um alargamento das possibilidades. Estar espantado é inventar. O espanto é uma invenção do próprio corpo sobre si. Como alguém que faz um corte no seu braço, com uma lâmina escolhida entre objectos recebidos por herança familiar. O corpo espantado é o corpo que recebe um golpe.

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3. Pormenor

dedicado a Carl Andre

A firmeza exigida ao demónio faz deste a trave mestra do mundo. Endireitar o demónio é o processo básico da engenharia. Fazer algo é eliminar a desordem, a extraordinária capacidade da natureza para instalar o caos. Fazer é parar, à força, o mundo.

O demónio é uma energia desanimada, espalhada pelo espaço. Fazer algo é dar ânimo; alma, portanto. Isto é: dar uma direcção, impor um mapa e nesse mapa um caminho. Mas um caminho é já uma produção do homem; o mundo natural e a sua primeira voz – o demónio – não tem um caminho, mas todos e ao mesmo tempo: como alguém muito indeciso ou muito avarento que guarda tudo para si.

E o mais difícil é fazer devagar, fazer baixinho. Muito mais energia exige o pormenor. Todos os trabalhadores manuais, incluindo Deus, o sabem.

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2. Etiquetas

Darren Almond

A Realidade cheia de etiquetas como se ela própria necessitasse de indicações. A realidade precisa de linguagem para não se perder, nisto acredita o homem.
Mas a Realidade já existia antes do Homem, e antes do substantivo.
Não foi a palavra pedra que colocou a primeira pedra no mundo: foi a pedra que colocou a primeira palavra pedra na linguagem humana.
A realidade criou a linguagem; sem ela o linguista não teria coisas em que pudesse pousar as letras. A Língua ficaria vazia, à espera que a realidade começasse. Não houve, pois, um diálogo de gentilezas mútuas, um: comece você/ Não, primeiro você, faço questão. Nada disto. A Realidade entrou primeiro. Depois, muito mais tarde, veio a linguagem e começou a falar. E não se calou.

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1. Sapatos

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