Duas equipas, dois territórios, uma convicção: o futuro da arquitetura pode estar no que já temos debaixo dos pés. Com a inauguração de Terra Crua, o MAC/CCB anuncia os projetos vencedores das Bolsas de Criação Diogo Seixas Lopes 2026.
Em «CHÃO-FESTA», o arquiteto Pedro Sequeira, a arqueóloga Mariana Castro e a PULSAR — Companhia do Corpo resgatam o «balho». Esta tradição alentejana de compactação de terra através de festas comunitárias transforma o Centro de Arquitetura do MAC/CCB num laboratório vivo de economia circular a partir de solos e detritos recolhidos em obras de Lisboa.
Já «Uma Casa no Paraíso» analisa Elalab, na Guiné-Bissau, como modelo alternativo à homogeneização contemporânea da forma arquitetónica, usando um núcleo de terra e uma segunda pele porosa de madeira de mangue e colmo. Neste projeto, o coletivo MEL toma como ponto de partida A Casa de Adão no Paraíso, de Joseph Rykwert.
Duas propostas, um compromisso: o da investigação e da criação contemporânea como motores de pensamento sobre o território.
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CHÃO-FESTA
Como podem a memória e o corpo moldar a arquitetura do futuro? «CHÃO-FESTA» resgata a tradição portuguesa de compactar a terra através de festas comunitárias conhecidas no Alentejo como «balho», transformando o Centro de Arquitetura do MAC/CCB num laboratório vivo de economia circular.
A partir de solos e detritos recolhidos em estaleiros de obras de Lisboa, o arquiteto Pedro Sequeira, a arqueóloga Mariana Castro e a PULSAR — Companhia do Corpo unem-se e propõem uma reflexão sobre o chão que pisamos, a ecologia dos materiais e a biografia da terra.
Três momentos formam o chão: um laboratório técnico aberto de experimentação de diferentes terras e misturas; um momento de compactação do solo através do movimento rítmico na performance Canto do Chão; e, por fim, uma escavação arqueológica em tempo real que expõe uma reflexão acumulada sobre a continuidade e materialidade da terra entre passado, presente e futuro.
Canto do Chão nasce do encontro entre o corpo e a terra, entre o gesto e a matéria, entre a memória e o futuro. A partir da tradição portuguesa do balho, em que a terra é compactada através do trabalho coletivo e do ritmo dos corpos, a performance transforma o passo, o peso e a repetição num gesto de construção.
Os pés encontram o chão, o ritmo organiza os corpos e o movimento torna-se matéria. Cada passo deixa uma marca; cada corpo participa na transformação de um chão comum. Entre a força individual e a pulsação coletiva, Canto do Chão celebra a relação ancestral entre corpo, terra e comunidade.
Integrada em CHÃO-FESTA, a performance participa num processo que cruza práticas construtivas, ecologia, arqueologia e criação artística, refl etindo sobre a matéria que nos sustenta, os lugares que habitamos e aquilo que deixaremos às gerações futuras.
Um canto feito de passos.
Um chão construído por corpos.
Uma memória que se inscreve na terra.
Que bem haja chão para nos sustentar e corpos para o celebrar.
– Marco Santos
Bios:
Pedro Sequeira (Lisboa, 1993) é um construtor e arquiteto focado num ato de construir mais responsável, sensível ao contexto cultural, social e ambiental em que se insere. Formado em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa e pela Istanbul Technical University, integrou um grupo de investigação da Universidade de Lisboa quando da reconstrução das habitações destruídas pelos incêndios de 2017. Trabalhou depois com o Cru atelier, antes de se dedicar à construção, com foco nas técnicas em terra, cal e reabilitação do património vernacular. Desenvolve também parcerias em contexto educativo e experimental, destacando-se colaborações com a associação Oficinas do Convento (Portugal), BC materials (Bélgica) e Basehabitat (Universidade de Artes de Linz).
Mariana Castro, PhD, é arqueóloga da paisagem e dedica-se a investigar a interseção entre ecologia, história e dinâmicas de resiliência comunitária em ambientes áridos e de escassez. É doutorada pelo Institute for the Study of the Ancient World (Universidade de Nova Iorque) e obteve o seu MPhil (Mestrado de Estudos Avançados) como Ertegun Scholar na Universidade de Oxford. O seu percurso profissional é marcado por uma vasta experiência de campo, que se estende do Egito ao Cazaquistão, financiada pela UNESCO, pela American Philosophical Society e pelo Ranieri Fund, entre outros. Além da sua investigação, Mariana é fundadora e presidente da Ação Floresta Viva, uma associação dedicada à regeneração ecológica e comunitária na Serra da Estrela.
PULSAR — Companhia do Corpo
Fundada por Marco Santos, músico, compositor, performer e criador transdisciplinar português, PULSAR — Companhia do Corpo surge como um desdobramento natural de mais de duas décadas do seu percurso artístico internacional. Explorando o ritmo e o corpo como linguagem artística, física e relacional, a companhia desenvolve uma linguagem própria assente no ritmo em movimento, cruzando música, dança e performance. Através de processos de criação, formação e envolvimento comunitário, investiga as relações entre Corpo, Espaço e Tempo. Apresentou trabalhos em espaços como a Casa da Música e o Teatro Ibérico, entre outros, afirmando uma crescente projeção nacional e internacional.
Direção e Criação Artística
Marco Santos
Produção
Margarida Soares, Marco Santos
Elenco PULSAR – Companhia do Corpo
Biatriz Alves Ribeiro
Denys Stetsenko
Mariana Camacho
Margarida Soares
Matilde Teixeira
Miguel Pereira
Sofia Sequeira
Rui AIres
Agradecimentos
Universo Paralelo, Fernando Mota, Real Pelágio e Câmara Municipal de Lisboa
Programa Público
◾ Performance “Canto do chão”
6 de setembro às 17:30
Entrada livre
3 a 14 de agosto: Laboratório aberto de experimentação de diferentes terras e misturas.
6 de setembro: momento de compactação do solo através da performance “Canto do Chão.” criação de Marco Santos, uma celebração do encontro entre o corpo e a terra, onde o peso do corpo, o gesto, o passo e a força do ritmo coletivo enraízam uma experiência de pertença.
10-11 de setembro: Escavação arqueológica em tempo real que expõe uma reflexão acumulada sobre a continuidade e materialidade da terra entre passado, presente e futuro.
Terra Crua (c) Tiago Casanova
Terra Chão
UMA CASA NO PARAÍSO
Partindo de A Casa de Adão no Paraíso, de Joseph Rykwert, esta investigação analisa Elalab, na Guiné-Bissau, como uma forma de repensar a ideia de origem em arquitetura.
As habitações de Elalab — compostas por um núcleo de terra e uma segunda pele porosa de madeira de mangue e colmo — geram uma materialidade que ultrapassa a lógica do abrigo mínimo, promovendo encontro social, regulação ambiental e ludicidade em contextos de escassez. Expandindo o enquadramento de Rykwert com contribuições de Kenneth Frampton, Juhani Pallasmaa, Rem Koolhaas e Francis Kéré, a investigação propõe Elalab como laboratório vivo de modelos alternativos à homogeneização contemporânea da forma arquitetónica. Com experiência direta no território entre 2014 e 2016, o coletivo MEL desenvolverá trabalho de campo, análise investigativa e disseminação pública, trazendo este contributo para a contemporaneidade e abrindo novos enquadramentos conceptuais para a disciplina.
UMA CASA NO PARAÍSO revisita um projeto habitacional desenvolvido pelo ColectivoMEL entre 2015 e 2016, em Elalab, uma aldeia no noroeste da Guiné-Bissau, construído e gerido pela comunidade local.
Em Elalab, o território é protegido por uma densa faixa de mangal, base de todo o ecossistema, que se estende ao longo das margens pantanosas do rio e abriga as sucessivas camadas de flora, fauna e áreas agrícolas que se desenvolvem para lá dela. Os mesmos ramos de mangal, recolhidos e curados, são entrançados em ripas verticais que formam o perímetro da casa de Elalab, coroado por uma cobertura de colmo. No interior, um núcleo compacto de terra, correspondente ao quarto, é construído através da sobreposição de bolas de terra comprimida, moldadas ainda húmidas até formar uma parede contínua. Núcleo e periferia, estas duas peles otimizam o desempenho bioclimático, evitando o desperdício de recursos e criando um espaço intermédio onde se desenrola grande parte da vida quotidiana. É uma demonstração prática da arquitetura enquanto matéria.
A exposição apresenta Elalab não como um ideal vernacular nostálgico, nem como um símbolo etnográfico, mas como uma proposição crítica que desafia noções estabelecidas de progresso, eficiência e avanço tecnológico. Ao examinar as relações entre matéria, ecologia, logística, construção e habitação, Uma Casa no Paraíso questiona os caminhos que podem emergir para a arquitetura contemporânea se pensarmos o edifício não como um objeto, mas como um ambiente que respira, envelhece, se transforma e pertence ao lugar onde se inscreve. Através do foco na sua organização espacial e material, Elalab torna-se um caso de estudo peculiar para pensar a arquitetura como uma relação incorporada entre matéria, clima, trabalho e conhecimento coletivo.
Bio:
MEL é um coletivo formado por Ana Baptista, Hugo Dourado e Miguel Eufrásia. Ana Baptista licenciou-se na FAUP, completou o mestrado na ETSAB de Barcelona, e foi finalista do Moira Gemmill Prize 2022. Hugo Dourado licenciou-se na ESAP, e conta com uma vasta experiência projetual entre o Porto e Barcelona. Miguel Eufrásia, licenciado pela FAUP, é doutorando no DARQ-FCTUC com bolsa FCT, investigador do arquivo de Álvaro Siza no CCA, em Montreal, e palestrante em conferências internacionais. Os três partilham uma formação marcada pela experiência ibérica e por práticas que valorizam a materialidade e o envolvimento comunitário, questionando o conceito do vernacular — visível em projetos desenvolvidos em Portugal, Brasil, Guiné-Bissau e Moçambique.
Programa Público
◾ Conferência “Para Além da Cabana Primitiva: Aprendendo com Elalab”
1 de outubro às 17:30 no Centro de Arquitetura
Entrada livre
Uma casa no Paraíso