Benjamim

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Benjamim ©Vera Marmelo

Benjamim ©Vera Marmelo

«Encontrei-me na estrada nacional que atravessa o coração do Alentejo, antes de Vila Ruiva, entre o céu de Maio, o calor abrasador do Verão, as manhãs passadas em frente da lareira em Dezembro, os velhos sentados ao balcão do bar, o baile da pinha, o vinho da talha, a ermida de Santa Luzia, retornados, reformados, ex-combatentes dos dois lados da barricada, comunistas, fascistas, alheados, alcoólicos, exilados, inconformados, heróis. Privei com revolucionários, andei pelo campo e sequei as adegas da Vidigueira, Cuba e Alvito. Pus uma vila a dançar, juntamente com o meu amigo Gonçalo. Atravessei a fronteira a 6 de Agosto de 2013 com o meu outro amigo Zé Guilherme, depois de percorrermos boa parte da Europa de carro, eu tinha passado uns tempos fora e agora era a minha vez de me despedir do meu emprego precário e tentar a minha sorte. Tinha o mundo para descobrir e a tarefa de escrever canções de uma maneira completamente nova para mim, desta vez na minha língua materna. Não era fácil esta tarefa de me reinventar.

Em Agosto de 2015 demos volta a Portugal, 33 concertos de seguida na loucura do asfalto e com o apetite dos 29 anos. Queimámos gasóleo a preços de primeiro mundo e passámos o resto do ano, e boa parte do próximo, na estrada. Ultrapassámos rapidamente a fronteira dos 100 concertos, tocámos em coretos, casas, barcos, festivais, casas de cante, teatros, auditórios, herdades chiques, associações culturais, comícios partidários, comícios apartidários, na rua e em qualquer sítio onde uma pessoa consiga inventar um palco. Por vezes com resultados desastrosos, tocámos ao sol para mil pessoas e à chuva para duas. Auto Rádio saiu em 2015, não foi um sucesso estrondoso de vendas mas esgotámos os CD.
Uns anos antes tinha conhecido o Barnaby Keen num cinema, em Londres. Eu era o técnico de som e ele um músico extraordinário por quem as raparigas suspiravam. À conta de um disco do Chico Buarque que eu tinha posto a tocar no sistema de som, trocámos cumprimentos em português, o que, convenhamos, é chocante, vindo de um inglês, loiro, de olhos azuis, com dois metros. Passado uns tempos veio visitar-me a Alvito e decidimos logo fazer um disco juntos. Estas ideias embriagadas nem sempre têm consequências práticas mas passado seis meses lá aterrava ele no Aerporto da Portela, para a primeira de duas sessões de gravação de 1986, um álbum bilingue com 4 canções escritas por ele, e outras 4 por mim. Queríamos descobrir se a música de dois indivíduos nascidos no mesmo ano, em lugares tão diferentes, poderia comunicar. Tivemos de aprender a cantar na língua um do outro e a lidar com as nossas diferenças. Algo complicado nos tempos que correm.
O que vem a seguir ainda está a ser escrito nas linhas do presente, canções novas que vou estrear com a minha banda em Lisboa, no último grande concerto antes de entrarmos em estúdio para registar o terceiro capítulo de uma viagem que só agora começou. Uma noite de canções que já percorreram milhares de quilómetros e de música que ainda está para vir.» - Benjamim



25 outubro 2019 | 21:00
M/6
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