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Paul Celan - «O poema é solitário e vai a caminho...»

Conferência por João Barrento

JBMaJose Palla

JBMaJose Palla

Entro no universo da poesia de Paul Celan por três portas.
1) A de um Eu que, aparentando fechar-se cada vez mais sobre si próprio, se abre realmente ao Outro, pondo o poema «a caminho», abrindo clareiras de luz no corpo de uma linguagem altamente cinzelada, da sua fala própria, límpida e arriscada, em pleno terreno da «língua dos assassinos». Estamos na ponta final de todos os humanismos e no reino do totalitarismo, da nulificação do humano, da redução a zero do indivíduo no beco sem saída da História. O caminho só poderia levar para os terrenos do trágico (e para a «morte livre», forte expressão alemã para «suicídio», que Paul Celan escolheu num dia de Abril de 1970, entregando-se às águas do Sena). E no entanto – ou talvez por isso mesmo – esta poesia, contrariamente às leituras que a dizem hermética e impossível depois de Auschwitz, não é monológica nem autotélica: é dialógica. O poema é agora a fala de um Eu que se dirige «a um Tu apostrofável», faz-se a partir de uma intenção de relação e encontro – mesmo sendo «poesia absoluta», o poema impossível nos limites da expressão. «O poema é solitário. É solitário e vai a caminho».

2) Assim sendo, esta é uma poesia do testemunho, poesia de alguém que fala sempre em último lugar, sem nunca ser o último (é o tema do pequeno ensaio de Blanchot sobre Celan, O Último a Falar). Dois tipos de testemunho existem nesta poesia, que nela alternam, se fundem e confundem: pela voz (o dizer, o pronunciar-se), testemunho que em Celan nem sempre é o mais importante; e pelo silêncio, entendido como presença também ela falante, muitas vezes mais ainda do que a palavra dita, já que há realidades que só o não-dito da poesia pode dar, para lá de qualquer narrativa ou relato. Isto acontece por meio de um exorcismo da linguagem que em Celan tem um nome: das Gegenwort, que é preciso entender no seu duplo sentido de contra-palavra e palavra do encontro. É o «resto cantável» desta poesia, o que resta, em permanência, do «ainda-e-sempre» do poema absoluto e de uma experiência muito particular da História que passa pelo corpo e o transcende.

3) O objecto desse testemunho («irrefutável») é precisamente, nesta «poesia das vítimas», o século de todos os desastres e a sua História. O século XX e a «majestade do absurdo» nele, perseguindo os vestígios de sentido nas ruínas dessa História, arrancando à opacidade do mundo sinais de luz que permitam também «ler o que não foi escrito», pelos caminhos da «solidão essencial» daqueles que se situam à margem, e da própria essência da arte (também aqui ecoa Maurice Blanchot: «a obra é solitária: isto não significa que ela seja incomunicável»). Celan escolhe esta via de risco, porque, como já tinha dito Hölderlin, um dos seus mentores, «onde existe o perigo cresce / também aquilo que salva». Nem que seja pelo progressivo silenciamento da linguagem nesta poesia agonística em que a Morte e o Nada são uma apoteose.


JOÃO BARRENTO
Ensaísta e tradutor. Professor (aposentado) de Literatura Alemã e Comparada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Publicou mais de vinte livros de ensaio, crítica literária, crónica e diário, e traduziu literatura de língua alemã do século XVII à atualidade (incluindo três volumes de Paul Celan). Colaborador do jornal Público (1990-2006) e da maior parte das revistas literárias portuguesas. Vice-presidente do PEN Clube Português (1990-2006). Atualmente é presidente da Direção do Espaço Llansol-Associação de Estudos Llansolianos, responsável pelo espólio da escritora Maria Gabriela Llansol.
Recebeu os mais importantes prémios de ensaio, tradução e crónica.
Agraciado com a Cruz de Mérito Alemã (1991) e a Medalha Goethe (1998).

 

Produção | CCB


Sete Rosas Mais Tarde - Ciclo Sobre a Solidão

O ciclo dedicado à temática da solidão, cujo título foi «roubado» a um poema de Paul Celan, intitulado Cristal, propõe uma reflexão sobre uma realidade integrante da condição humana e que muito recentemente foi considerada, por várias instituições e governos, epidemia. A reflexão, contudo, não se debruça sobre discursos clínicos, mas é antes mediada por objetos artísticos que partem desse solo que cada um sente como único para o transcender e, quer através da palavra ou da música, nos confrontar com as várias modulações que a arte soube construir a partir dessa experiência radical e universal.

9 fevereiro 2019 | 16:00

Sala Sophia de Mello Breyner Andresen
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