António Pinho Vargas

Lançamento do CD Concerto para Violino

António Pinho Vargas © Miguel Manso

António Pinho Vargas © Miguel Manso

Concerto para Violino, No Art - quatro estudos para violino solo, Quasi una Sonata para Violino e Piano

Este CD incluiu três obras ligadas entre si por razões cronológicas e afectivas. A primeira (2010) Quasi una Sonata foi estreada no CCB por Gareguin Aroutiounian e Miguel Henriques em 2010. Pouco tempo depois, Tamila Kharambura e Inês Andrade tocaram-na admiravelmente, uma segunda vez, numa das provas do Prémio Jovens Músicos que Tamila viria a ganhar nesse ano. De seguida, comecei a peça NO ART - quatro estudos para violino solo (2014) que foi estreada em 2016 por Tamila Kharambura. A meio deste processo veio a notícia inesperada e dolorosa da morte de Gareguin Aroutiounian, que nos afectou a todos e a todos os seus colegas da Escola Superior de Música de Lisboa. A composição do Concerto para Violino, in memorian Gareguin Aroutiounian, a obra principal deste disco, de 26 minutos de duração, durou cerca de 2 anos durante os quais pedi a Tamila que me fizesse a revisão da parte solista, de acordo com as antigas práticas habituais nos concertos. Foi inestimável e insubstituível o seu contributo. Neste sentido a obra ficou marcada pelas relações de afecto inter pares e pelo desejo de usar no concerto material musical proveniente do Leste europeu, modos, escalas e simetrias, como base que sustentasse musicalmente a dedicatória de forma clara e ampla. Dito isto, tinha de compor. Nada a comporia por mim.

A recepção do concerto de estreia foi uma daqueles momentos nos quais se estabelece uma magia misteriosa entre a música, os intérpretes e o público. Não posso dizer que aconteça muitas vezes. Apenas umas tantas que, no entanto, podem justificar uma vida ou um destino. Tal facto foi notado por Pedro Boléo que escreveu no Público na sua crítica do concerto dois dias depois:

" Uma estreia tem sempre aquele sabor de “pela primeira vez”? Nem sempre. O novo Concerto para Violino de António Pinho Vargas parecia uma obra estreada há muitos anos e já plenamente integrada no reportório de violinistas e orquestras. Talvez esta sensação venha da forma como a violinista Tamila Kharambura pegou na obra, numa ligação profunda com ela, como se a conhecesse desde sempre. Talvez venha também de um diálogo consciente com a história da música que esta obra suscita, não por citação ou referência directa, mas como se citasse gestos que o violino e a orquestra incorporaram. O que é especial no concerto de Pinho Vargas é que esse diálogo não estabelece uma relação objectivista (nem “burocrática”) com a história, mas ganha uma dimensão íntima." […] Público, 9.2.16

Efetivamente o que aqui foi descrito com agudeza corresponde, do meu ponto de vista, à apropriação profunda da obra que Tamila Kharambura levou a cabo, à sua excepcional performance e à inteligência e extrema competência com que o maestro Garry Walker e a Orquestra Metropolitana no seu todo o fizeram do mesmo modo.  Se o público presente o terá sentido de uma forma clara tal só poderia ter acontecido perante uma execução de enorme qualidade e intensidade expressiva. Esse momento único está aqui registado na gravação ao vivo que teve lugar. Completam o disco as obras que cronologicamente o antecederam, que lhe foram dando os recursos necessários e acentuaram a ligação que perfaz o todo.

Pelo que referi enquanto misteriosa magia compreende-se que aquele dia particular ocupa um lugar especial na minha memória. Ter acontecido é um facto impossível de apagar, um evento. Este disco torna-o perene. Gostaria de finalizar este pequeno texto com três aspectos aos quais atribuo grande importância: primeiro, a primazia que atribuo ao vivido e ao afectivo; em segundo lugar, a vaga sensação de que os discursos sobre música, muitas vezes fechados sobre si mesmos ou demasiado técnicos - o que será certamente importante no ensino, sem nenhuma dúvida - talvez não consigam por vezes captar o núcleo primordial das obras de arte, o essencial do seu ser-obra; final e inversamente, devo uma forma de agradecimento tão profundo como difuso a todos os que lá estiveram, tanto a tocar como a ouvir.  O evento resultou da junção tripartida da obra, dos músicos a darem-lhe realidade e dos ouvintes a darem-lhe uma parte do seu tempo e a sua audição, a sua percepção sensível, sem a qual a música ficará sempre incompleta do meu ponto de vista. Tudo o que referi é a forma como vejo as coisas, como é evidente. Mas é-o de tal modo que não gostaria de o descentrar com considerações de outra ordem. Isso caberá a outras pessoas com toda a legitimidade para tal. Mas não a mim.

                                                                       António Pinho Vargas, Novembro de 2016



Agradecimentos Ao CCB que encomendou a obra e realizou a sua gravação sob a direção de Nuno Grácio, à Orquestra Metropolitana que igualmente autorizou a gravação e que apoia institucionalmente esta edição, à editora mpmp, que acolheu o projecto e lhe deu continuidade, em especial a Duarte Pereira Martins, a José Fortes pela amizade de muitos anos, insuperável competência e ao empenho com que trabalhou sobre a gravação do Concerto e no Master final, a Filipe Chaves que gravou excelentemente as duas peças restantes e ao Conservatório de Lisboa onde estas tiveram lugar. Finalmente a todos os músicos que nele participam e se fazem ouvir a si próprios com total entrega.


Coprodução | CCB | MPMP



29 junho 2017 | 19:00

Sala Luís de Freitas Branco
Entrada Livre, mediante a disponibilidade da sala
1h30 min
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