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Os Músicos do Tejo

Concerto de Páscoa

© Daniel Malhão

© Daniel Malhão

Os Músicos do Tejo

Independentemente das convicções religiosas de cada um, produzir ou contemplar uma obra artística pode assemelhar-se a uma oração. Por vezes, parece ser uma súplica dirigida a uma entidade indistinta – uma projeção mística de nós mesmos, quem sabe? Com uma atitude espiritual, mergulhamos em rituais introspetivos que nos permitem desenhar os contornos da vontade, os desígnios da existência. A ideia de que a Arte cumpre uma função na sociedade cruza-se necessariamente com esta abordagem. E se a falta de consenso em torno da matéria resulta, em parte, da diversidade das manifestações artísticas e das características de cada sociedade, as convicções filosóficas e políticas tornam os propósitos funcionais infindos. Ainda assim, há formas de expressão artística que assumem a intenção deliberada de mudar o mundo e de trazer a Paz à Humanidade. Isso não é absurdo. A Arte não substancia a realidade, mas influencia os seus protagonistas. No âmbito específico da Música, é possível identificar estilos e formas com essa vocação. Os pergaminhos conduzem-nos tendencialmente para a Música Sacra, o que não é de estranhar, pois compete às hierarquias eclesiásticas promover contextos eficazes para a difusão de causas e valores comuns. Mas acontece o mesmo com muita da Música Secular que conhecemos. O programa deste concerto percorre precisamente esta linhagem estética num arco temporal de seis séculos. Atravessa estilos muito variados, mas converge na exortação da Paz. Com efeito, há muitas razões para chorar, lágrimas de todo o tipo que emprestam múltiplas razões de ser às diferentes práticas musicais, seja pela simples reação de nojo ou pela sublime comoção da alegria.

 Durante boa parte do século XV Guillaume Dufay foi o compositor com maior prestígio à escala internacional. Natural da Flandres flamenga, a sua vida passou por Cambraia, Bolonha, Roma e Genebra. «Ave maris stella» é exemplo de um dos recursos mais representativos da sua produção, designadamente o faux-bourdon, em que as diferentes vozes «duplicam» a melodia de cantochão seguindo regras pré-determinadas. Destinada à celebração da liturgia, consiste num hino de devoção à Virgem, reflexo da importância do culto Mariano na Idade Média e na Renascença. Numa perspetiva teológica, Maria intercede pela salvação do Homem, pelo que ao longo dos tempos se instituíram festas religiosas como a Anunciação e a Visitação. E porque nas Igrejas Cristãs se recorre a imagens para aludir a Deus, a estrela do mar (Maris stella) é a estrela do céu que representa Nossa Senhora, a quem o crente roga para que o guie em mar alto. A dada altura do texto ouve-se «Funda nos in pace», a Paz duradoura que deverá conduzir a Humanidade.
 Foi com a mesma orientação de fé que na segunda metade do século XVI foi composto o moteto a quatro vozes Ave Maria de Tomás Luis de Victoria – em bom rigor, foi composto por Jacobus Gallus (1550-1591), um compositor de origem eslovena. A origem do equívoco remonta a 1913, quando o musicólogo Felipe Predrell publicou a obra completa do compositor espanhol. Estudos recentes esclarecem que o tipo de escrita vertical e homofónica era mais característico de Gallus, apesar de Victoria ter vivido cerca de vinte anos em Roma e convivido de perto com o modelo musical contra-reformista de Palestrina. As palavras coincidem aqui na Saudação Angélica à Virgem Maria, na formulação do Concílio de Trento que ainda hoje se reza.

 Já no Período Barroco, a arte da ilusão afirmou-se em detrimento de manifestações devotas partilhadas pelos ouvintes. A Música tendeu a moldar comportamentos, na vez de apelar ao espírito crítico. A Música Sacra e a Música Profana continuaram a partilhar recursos e disposições expressivas, sendo Antonio Vivaldi uma das figuras mais representativas dessa ambivalência. O compositor veneziano é hoje, sobretudo, celebrado pelas centenas de partituras instrumentais redescobertas nos anos 1950, as quais contribuíram de modo determinante para a consolidação do formato concerto em que o solista assume protagonismo à frente de uma orquestra – e de que são bom exemplo As quatro estações. Haverá, todavia, que reorientar alguma da nossa atenção para as dezenas de concertos que escreveu sem solista, só com os quatro naipes das cordas. São obras libertas dos condicionamentos da palavra e de situações contextuais rígidas. Vocacionadas para situações de entretenimento, denotam uma experimentação que se alimenta, todavia, das afinidades que mantém com o estilo sacro, como acontece no primeiro andamento do RV 134, uma fuga bastante elaborada e carregada de cromatismos. Com três andamentos, e uma só tonalidade, o seguinte já tem um caráter mais teatral, enquanto o Finale consiste numa série de secções contrastantes que se repetem ao estilo das danças sociais da época.
 Paralelamente, Vivaldi escreveu obras sacras que também têm sido relegadas para segundo plano. Ele próprio foi ordenado padre, muito embora nunca tenha exercido o sacerdócio. Conhecia bem, portanto, o protocolo do ritual católico. Chegaram-nos cerca de seis dezenas de criações religiosas da sua autoria, incluindo uma missa completa, rubricas não litúrgicas e partes da missa desgarradas. É o caso do Credo RV 591, para coro a quatro vozes e orquestra de cordas. A maior parte do texto desenrola-se nas primeira e última partes da peça, onde predomina uma textura homofónica. Nos números centrais, Et incarnatus est e Crucifixus, Vivaldi investiu maior criatividade, com um registo dolente e cuidadas elaborações contrapontísticas, respetivamente.

 O conceito de Paz seria inexistente se o Homem não conhecesse o fascínio e os horrores da guerra. Não espanta, por isso, que muitas das preces que enaltecem a convivência pacífica entre os povos transmitam exaltação. Trata-se, afinal, da defesa imperativa de um ideal. No capítulo 122 do livro de salmos do Antigo Testamento (Laetatus sum) lê-se «Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!». Era assim cantado pelos judeus enquanto subiam as escadas do templo, com a alegria da fé. Mais à frente roga-se pela Paz entre as muralhas de Jerusalém. Foi este o texto que Claudio Monteverdi escolheu para uma das treze peças que compõem as «Vespro della Beata Vergine» de 1610. Nesse ano, o compositor italiano que se distinguiu na Ópera e no Madrigal, ofertou ao Papa este livro também dedicado à Virgem, mas neste caso para o ofício divino das Vésperas. Então radicado em Mântua, mostrava assim a Roma também dominar o stile antico. No caso de «Laetatus sum» colocou a retórica musical ao serviço da palavra. Escrita para seis vozes, nem sempre insere a entoação do salmo antes dos versos que se sucedem em variações estróficas sobre uma linha de baixo que se repete.
 Por sua vez, em 1724, pouco tempo depois de se instalar à frente das igrejas luteranas de Leipzig, Johann Sebastian Bach evocou um hino do século XVI no libreto da cantata BWV 101, «Afastai de nós, Senhor, Deus fiel, o castigo severo e o maior sofrimento.» O sacerdote místico Martin Moller escrevera este texto na sequência do flagelo das guerras e da peste que assolou a Europa entre 1582 e 1584. Bach juntou ainda um excerto do evangelho segundo São Lucas em que Cristo prevê a destruição de Jerusalém, proclama a purificação do templo, denuncia a ameaça à Paz e pede graças e misericórdia a Deus.

 Por último, regressamos aos nossos dias, com o estilo solene e minimalista do compositor estónio Arvo Pärt. Para que haja mudança é necessário, por vezes, o isolamento da rotina, a recusa e a abnegação. A Música Antiga favorece esse posicionamento, e Pärt percebeu-o como ninguém ao colocar técnicas da polifonia renascentista ao serviço da contemporaneidade. Da pacem, Domine foi originalmente composta para quatro vozes, e só posteriormente publicou versões para outras formações instrumentais. Baseia-se no cantochão homónimo e ostenta movimentos paralelos entre as vozes. Evoca assim o passado… mas com uma mágoa presente. A obra começou a ser composta logo após o 11-M, a série de atentados terroristas que ocorreu na cidade de Madrid a 11 de março de 2004. O desafio foi-lhe lançado por Jordi Savall, projetando um Concerto para a Paz que teve lugar no dia 1 de julho seguinte em Barcelona. As palavras recuperam um hino medieval, uma oração pela paz: «Concede-nos a paz misericordiosamente, Senhor Deus, nestes nossos tempos. Afinal, não há outro que por nós pudesse lutar senão Tu, nosso Deus, unicamente.» Pärt é cristão ortodoxo, mas a Música é uma expressão criativa verdadeiramente ecuménica. Com uma ou outra fé, ou sem fé alguma, comungamos todos desse pesar que se mantém tristemente tão atual.

 

                                                                                           Rui Campos Leitão




Aapo Häkkinen Maestro convidado

Voces Caelestes
Sérgio Fontão direção do coro

Susana Gaspar soprano
Carolina Figueiredo contralto
Marco Alves dos Santos tenor
André Henriques baixo

Os Músicos do Tejo
Marcos Magalhães e Marta Araújo Direção


Programa

Concerto Para a Paz
Guillaume Dufay (1397-1474) Ave maris stella
Tomás Luis de Victoria (1548-1611) Ave Maria
Claudio Monteverdi (1567-1643) Laetatus sum, 1610
Antonio Vivaldi (1678-1741) Sinfonia, RV 134 Credo, RV 591

intervalo

Johann Sebastian Bach (1685-1750) Nimm von uns, Herr, BWV 101
Arvo Pärt (1935-) Da pacem, Domine, 2004


Produção | CCB



13 Abril 2017 |  21:00

M/6
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