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CCB

Datas / horários

Sábado, 21 março de 2026 10:30 às 19:00

Entrada gratuita (sujeita à lotação dos espaços)

Conversa

Literatura

Música

Poesia

Propomos uma celebração da poesia em língua portuguesa com a presença de poetas e leitores de poesia, atores, cantores e artistas vários. Instalações, projeções, transmissões e, sobretudo, leituras ao vivo, a solo ou coletivas, muitas formas para que a poesia possa ser escutada.
O CCB é neste dia uma casa feita de versos de poetas diversos e nela faremos uma celebração, não só da poesia que está nos poemas, e dos poetas que os escreveram, mas sobretudo da poesia que está do lado dos que leem os poemas ou dos textos que podem nem ser poemas, do lado dos leitores, e dos que a descobrem por acaso, se calhar, quando menos a procuram.

«A poesia não tem hora e lugar marcado. Não é pública nem mundana, mas secreta e incerta. A poesia pode não estar no poema anunciado: “Silêncio, que vamos ler poesia”.

Tal como o humor, que pode não estar na anedota que se conta para fazer rir, mas antes, se calhar, no falhanço da anedota, a poesia pode estar no falhanço do recital. A poesia pode estar no que não se lê, no verso esquecido, no verso mal lido, no não ouvido, no silêncio ou no que se vê: no olhar da rapariga da última fila, no chapéu do homem que acabou de entrar, no encontro que não se deu entre aquela mulher e aquele homem, na esquina onde eles não se encontraram. A poesia pode não estar no recital, mas sim no que no recital é ruído, distração ou acaso».

 

(Isto Não É Um Recital de Poesia, Nuno Artur Silva)

 

Ilustração © António Jorge Gonçalves

 

A Fundação Centro Cultural de Belém reserva-se o direito de proceder à captação, armazenamento e utilização de registos de imagem, som e voz, com a finalidade de difusão e de preservação da memória, quer das suas atividades culturais e artísticas, quer dos seus espaços. Para quaisquer esclarecimentos adicionais utilize o endereço eletrónico

Roteiro para se perder no Dia Mundial da Poesia 2026:

◾ 10:30

Uma introdução que pode ser lida como uma provocação
Nuno Artur Silva
Sala Fernando Pessoa

A poesia não é um género literário. Os poemas não são a única forma da poesia.

A poesia ou a beleza, tal como a felicidade, diz Borges, é frequente: «Não há poeta, por medíocre que seja, que não tenha escrito o melhor verso da literatura».

É frequente sermos surpreendidos pela cintilação da beleza ou da estranheza de frases, palavras, fragmentos ouvidos em ocasionais conversas, na rádio, na televisão, lidos nos jornais, nos múltiplos ecrãs…

A proposta é esta: ser escutadores de poesia, mas da poesia que não está apenas nos poemas.

A poesia que está na rua, nos encontros, nos acasos, ou a que pode estar num saco de plástico a esvoaçar ao vento, ou num filme de um saco de plástico a esvoaçar ao vento («… there’s so much beauty in the world»).

Neste nosso tempo em que muitos poemas começam a ser escritos por programas de escrita generativa de inteligência artificial, lembramos Pessoa, o poeta que escreveu:

«Sentir? Sinta quem lê!»

Mesmo que os poetas sejam falsos, não importa, são bonitas as canções.* Não há que procurar a poesia, há que estar desperto para o seu inesperado acontecer.

*Adaptação da letra de Chico Buarque da canção Choro Bandido, com música de Edu Lobo.

◾ 11:00

As escolas, as escolhas. Essa outra (estranha) poesia
António Carlos Cortez
Sala de Leitura

 

Começamos por encontrar a poesia nas canções que estão por toda a parte, mas é na escola que encontramos a poesia que está nos livros. Quem escolhe e como é feita a escolha dos poetas e dos poemas para que esse encontro se dê? A escola, a escolha.
Há um paradoxo que é preciso resolver em contexto de ensino: dizemos que é preciso «pôr os miúdos a ler», mas os textos que fazem parte dos currículos do 3.º Ciclo e do Secundário (é nestas idades que devemos consolidar os hábitos de leitura e a curiosidade dos estudantes…) são, não raro, pouco exigentes e instigantes para quem, entre os 13 e os 17, 18 anos, está divorciado da poesia.

Não se trata de facilitar na leitura daquele que é, na sua essência, um texto difícil. Falamos de poesia – e nunca nenhuma estratégia «facilitadora» poderá suscitar a vontade de descoberta daqueles que não leem poesia. Assim, nesta aula aberta a estudantes, professores e encarregados de educação e demais agentes da cultura, o que procuramos mostrar são alguns autores e poemas que, não fazendo parte do cânone escolar, suscitam, pela sua imaginação e linguagem, pelo seu poder de surpresa e de estranheza, a curiosidade de quem os ouve e lê.

Nesta sessão, António Carlos Cortez selecionou 5 a 10 poetas, cada um deles contemplado com dois textos. Ler e dar a conhecer «essa outra (estranha) poesia», eis uma porta aberta a que, nas escolas, haja outras escolhas para além dos manuais adotados.

◾ 11:00

Exibição do filme Paterson, de Jim Jarmusch
Apresentação por João Lopes
Sala Almada Negreiros

«Aha! This is very poetic.»

O protagonista é um motorista de autocarro (Adam Driver, nome perfeito para o papel) que escreve poemas e tem, curiosamente, o nome do lugar onde mora. A sua vida, rotineira como os horários do autocarro que conduz, é amorosamente desorganizada pela sua namorada e pelo cão dela que, digamos, não aprecia inteiramente os seus poemas. Paciente observador do que existe para lá da banalidade do quotidiano, Jim Jarmusch, com Paterson, realizou um filme genuinamente poético. E não apenas porque a figura central escreve poesia, mas porque a sua escrita é uma forma de estar vivo e saber olhar o mundo à sua volta.

◾ 11:00 às 18:00

Voz, 75 videoclips a partir de poemas da Literatura Portuguesa
Bengaleiro Norte do Centro de Congresso e Reuniões

 

Não é um programa de poesia. É um programa que parte de poemas para fazer imagens em movimento, tal como se parte de uma canção para fazer se fazer um videoclip.

A poesia em Língua Portuguesa na voz de Adília Lopes, Adriana Calcanhotto, Adriano Luz, Ana Moura, Ana Sousa Dias, Anabela Mota Ribeiro, Beatriz Batarda, Camané, Carmen Dolores, Catarina Furtado, Cristina Branco, Cristina Carvalhal, David Fonseca, Diogo Infante, Fernando Alves, Gabriel O Pensador, Inês Castel-Branco, Joana Seixas, João Lagarto, João Reis, José Pedro Gomes, Kalaf, Lídia Franco, Manuela Azevedo, Marco D’Almeida, Margarida Pinto Correia, Maria João Luís, Miguel Borges, Miguel Guilherme, Nuno Lopes, Paulo Pires, Raul Solnado, Rogério Samora, Rui Morisson, Rui Reininho, Sérgio Godinho, Sílvia Pfeifer, Sónia Tavares e Virgílio Castelo.

Voz
Conceção e Coordenação Nuno Artur Silva e Produções Fictícias
Direção de Arte e Realização Ricardo Freitas e Ricardo Espírito-Santo
Coprodução Produções Fictícias e Até ao Fim do Mundo

 

◾ 10:00, 14:00 e 16:00

Poema Riscado
António Jorge Gonçalves
Sala Amadeu de Sousa Cardoso

 

Numa sala obscurecida, António Jorge Gonçalves propõe uma performance visual onde a escrita acontece como gesto vivo.  À vista do público, o artista escreve manualmente (numa mesa digitalizadora) poemas de autores como Tom Zé, Amélia Muge, Paulo Leminski, Raquel Lima ou Adília Lopes, fazendo das palavras acontecimentos gráficos : manuscritas em tempo real, as palavras são projetadas nas paredes, ampliando o traço, o ritmo e a respiração da escrita. Embalada por uma banda sonora gravada, a performance cria um fluxo onde palavra, imagem e som se entrelaçam, transformando os poemas numa experiência visual e imersiva.

◾ 11:00 às 18:00

Uma canção para ouvir-te chegar
Instalação sonora de Elvis Veiguinha, a partir de leitura de poemas por Ivo Canelas e Jani Zhao
Sala Daciano da Costa

 

«A sala transforma-se num território de escuta. Não numa celebração ornamental da palavra, mas num confronto direto com aquilo que ela ainda é capaz de fazer: abrir fissuras, deslocar certezas, obrigar-nos a sentir. Esta exposição parte de um princípio simples e exigente: a poesia contemporânea não precisa de aparato, exige presença. A Sala Daciano da Costa é banhada por uma luz rasante que não ilumina totalmente nem esconde por completo. Essa penumbra ativa a audição, obriga à atenção demorada, e retira o visitante do conforto da distração. Ler é um ato físico. Escutar torna-se um exercício de entrega. Proponho-vos uma experiência sonora imersiva onde a palavra dita ganha corpo e respiração. As vozes do ator Ivo Canelas e da atriz Jani Zhao não dramatizam em excesso nem procuram espetáculo. O seu trabalho é o de servir o texto, respeitar o ritmo interno de cada poema, deixar que o silêncio entre os versos fale tanto quanto as sílabas pronunciadas. O desenho sonoro que criei não acompanha como fundo decorativo; antes constrói uma paisagem sensorial que expande a vibração da palavra, amplificando respirações, pausas e reverberações quase impercetíveis.

O foco é a palavra. A palavra enquanto matéria viva, enquanto gesto político e íntimo, enquanto proposta de reflexão e de inquietação. Não pretendo oferecer respostas, mas criar um espaço onde a emoção não seja diluída pela pressa. Aqui, cada visitante é convidado a demorar-se e a ouvir além do som e do significado imediato.

A poesia contemporânea é, muitas vezes, acusada de hermetismo ou afastamento. Esta proposta sonora recusa essa simplificação. Ao aproximar o corpo da voz e a luz do texto, devolve-se à poesia a sua dimensão sensorial e humana. O visitante não percorre apenas uma sala: atravessa uma experiência na qual a audição e a memória se entrelaçam. Num tempo saturado de estímulos, escolhemos a contenção; num tempo de ruído, escolhemos a escuta. Num tempo de consumo rápido, escolhemos a fruição integral. Porque a poesia, quando verdadeiramente ouvida, não se limita a ser compreendida, transforma.»

(Elvis Veiguinha, Sound Artist)

«e em todo o caso

há praças onde esculpir um lírio
zonas subtis de propagação do azul
gestos sem dono barcos sob as flores
uma canção para ouvir-te chegar»

(Poema podendo servir de Posfácio, Mário Cesariny)

◾ 11:00 às 18:00

Sala de Leitura Silenciosa (com auscultadores de onde se ouvem poemas)
Terraço da Sala Vitorino Nemésio

 

Uma festa de leitura silenciosa pontuada por três poetas nos auscultadores: Florbela Espanca, Natália Correia e Emily Dickinson (traduzida por Ana Luísa Amaral), lidas por Mia Tomé.

As festas de leituras silenciosas (silent reading parties) e manifestações semelhantes de leitura pública silenciosa têm-se multiplicado um pouco por todo o lado. São participações de leitores – cada um com o seu livro – em lugares de leitura onde ler deixa de ser apenas um retiro solitário e torna-se também num ato público, numa partilha silenciosa do ato solitário que é a leitura individual. Tal como o cinema, quando visto na sala escura de um cineteatro, é um encontro de desconhecidos que, por um momento, partilham uma experiência artística comum. Os encontros de leitura silenciosa são manifestações de vida urbana que contrariam a tendência contemporânea do isolamento tribal ou individual.

Nesta versão, a sala de leitura silenciosa disponibiliza um conjunto de auscultadores para quem quiser deambular ouvindo três sequências de poemas à sua escolha a partir de uma seleção e leitura de Mia Tomé.

 

«Florbela, Natália, Emily, nascidas com várias décadas a separá-las, certamente têm uma coisa em comum: todas elas mulheres fora do seu tempo, poetas acima do seu tempo. O que liga Vila Viçosa ao Massachusetts, ou até à ilha de São Miguel? Os lugares estão presentes nas obras das três autoras, os lugares são também a sua poesia.

A celebração da natureza está em todas elas: a palavra que se encontra com o mar, o esplendor dos animais ou a força insular de um vulcão. Mulheres autoras a desejar serem livres como abelhas, a lutar por direitos ou a amar perdidamente».

(Mia Tomé)

◾ 11:30 às 19:00

Ouvi-te ler aquele poema naquele dia e não descansei enquanto não o encontrei
Sala Maria Helena Vieira da Silva

 

Leituras de poemas escolhidos para este dia por Daniel Belo, Fernando Alvim, Filomena Cautela, Margarida Pinto Correia, Maria Castello Branco, Maria Flor Pedroso, Nicolau Santos, Paula Moura Pinheiro, Paulo Alves Guerra, Teresa Paixão e Tiago Ribeiro.

Para não descansarmos enquanto não os encontrarmos:

Fernando Alvim (11:30)

«Para que serve a poesia? Em todos estes anos fui mais eu que me servi dela do que ela de mim. Talvez seja uma relação de interesse, uma relação interesseira, e está bom de ver quem tem interesse em quem. Nesta sessão vou acertar contas com os poemas. Os que me salvaram. E também os outros. Que não me salvaram coisa nenhuma».

Paula Moura Pinheiro (12:00)
«Como percebeu Ted Hughes, um poema é como um animal (tiras-lhe uma vírgula e partes-lhe uma costela). Em abstrato, digo que gosto de todos os animais. Mas, claro, isso não é verdade. Só alguns animais capturam toda a minha atenção, só alguns me afetam. Da mesma maneira, amo muito alguns poemas. Mas só alguns».

Nicolau Santos (12:30)
«Olha-se para África e diz-se: não foi isto que combinámos. Olha-se para o estado do mundo e só nos apetece gritar: cultura contra eles! Olha-se para o país e recorre-se ao que escreveu Cesariny: falta por aqui uma grande razão! Pelo meio, claro, há sempre gente humilde e o amor, que também faz mover o mundo».

Margarida Pinto Correia (13:00)

«Neste dia da poesia vou celebrar os portugueses recentes. Poesia que se está a fazer durante as nossas vidas. E isso passa (também) por incríveis letras de canções que os nossos músicos escrevem».

Daniel Belo (14:30)

«Nesta seleção há poemas sobre a poesia e o que é ser poeta, sobre o tédio dos dias iguais, sobre a empatia, a música, a guerra e a paz. Há linhas sobre o que o ser humano é e poderia ser e sobre as viva-vozes poéticas que denunciam os silêncios de morte.
Procuro sempre na poesia reflexos da realidade que me rodeia. Visões alternativas à minha, assentes nos detalhes que muitas vezes só o olhar solto do poeta consegue notar.  Tudo isto me ajuda a compreender o que sou, onde estou e para onde gostaria de ir».

 

Maria Castello Branco (15:00)

«Reuni poemas onde a linguagem toca o invisível, que dançam no limiar entre sonho e realidade, num hábito surpreendente de nos trazer de costas, num tempo silencioso como a eternidade, numa pupila que escuta. A leitura tentará seguir esse fio. Aproximação, vertigem, claridade».

Paulo Alves Guerra (15:30)

«Migração e lembrança. E uma quietude inquieta. Talvez sejam os temas essenciais da escrita de W.G. Sebald (1944 – 2001). Além dos aclamados ensaios e romances, o autor de Austerlitz concebeu um luminoso poema em prosa: Do Natural. Um Poema Elementar (1988). Neste livro, Sebald é personagem, cita Dante e Virgílio e faz as perguntas essenciais: «Agora o amor não é nada? Ou é tudo? Água?  Fogo? Bem? Mal? Vida? Morte?».

Teresa Paixão (16:00)

«Se não gosta de cinema nem de televisão não há razão nenhuma para aplicar tempo nesta sessão. Se gosta destas duas coisas espero surpreender».

Filomena Cautela (16:30)

«Trago relíquias e disparates, alguns que me têm assegurado uma humanidade escassa por estes dias. Isto ou, quando me virem entrar, lembrem-se que é uma ótima altura para irem apanhar ar, beber um café, um cigarro ou qualquer outra coisa certamente melhor do que ouvir-me a assassinar palavras bonitas».

Maria Flor Pedroso (17:30)

«Venho simplesmente dizer que pintei o mar com lápis de cor como se nunca o tivesse visto porque no teu amor por mim há uma rua que começa. Quanto vale uma memória no mercado da poesia?»

Tiago Ribeiro (18:00)

«Talvez o mar tenha sido o primeiro grande amor da poesia. Talvez, e por exclusão de todos os outros elementos, nada mais se inversa à terra, na sua extensão terrena, que essa proporção monumentalíssima do próprio planeta aquático.  Das vagas Anterianas e seus sonetos, aos glaucos abismos de Férin onde o oceano também é ilha. Afinal, que mundo se vê do mar? Que poetas dele emergem com destino ao grande campo de todas as palavras? Muitos. Talvez, todos».

◾ 11:30

Era para ser uma canção
Conversa com gira-discos na Plataforma com Aldina Duarte, Nuno Galopim e Samuel Úria
Sala Sophia de Mello Breyner Andresen

Aldina Duarte, Nuno Galopim e Samuel Úria discorrem sobre as palavras que se cantam e sobre como as procurar entre música e poesia, dando a ouvir músicas com letras (ou poemas?) – aquilo a que chamamos canções.

O que tu chamas de poema é a letra duma canção de que não sabemos a música?

◾ 14:00

Constituição da Poesia Portuguesa
Conversa com Jorge Reis-Sá, Fernando Pinto do Amaral e Joana Meirim. Com leitura de poemas por Carla Maciel
Sala de Leitura

Nos 50 anos da primeira constituição democrática do país, pensamos em estabelecer a Constituição da Poesia Portuguesa.

«Entre nós e as palavras», há livros. São eles quem permite aos autores escrever o seu metal fundente. Por isso, esta Constituição da Poesia Portuguesa apresenta-nos um livro por autor, indicando-nos transitivamente os autores.

Dividimos os 50 anos em duas listas: os «constituintes», aqueles que editaram a partir de 1976, mas que a poesia portuguesa já conhecia há anos (ou décadas, até); e os «constituídos», os que se estrearam depois de 1976. A escolha teve duas linhas mestras: a importância do volume na obra do poeta e, consequentemente, na poesia contemporânea portuguesa; e a proximidade do livro – quando era por demais evidente – à pele do antologiador. Outra forma não há de assunção de uma escolha quando esta é nossa.

Seleção e apresentação de Jorge Reis-Sá, poeta, editor e antologiador que conversa com Fernando Pinto do Amaral, poeta e crítico literário e joana Meirim, professora e investigadora.

◾ 14:00

Oh, não! Lá vêm os poetas do costume (com as citações do costume…)
Nuno Artur Silva e Nuno Costa Santos
Sala Fernando Pessoa

Como ficam os poemas depois de todas as utilizações que deles são feitas? Como ficam depois de usados por hordas de leitores e declamadores? Será que certos versos, de tanto serem citados, chegam a um ponto em que já não se podem ouvir? Como podemos combater o cliché? Ou, pelo contrário, como é que nos podemos deliciar com o cliché? Chafurdarmo-nos no cliché?

Nuno Artur Silva e Nuno Costa Santos têm poemas para a troca e trocam, cromos de poetas e afins, os que saem mais e os mais difíceis da coleção.

Analisam os últimos dados dos barómetros de audiência da poesia, verificam o índice de citação dos versos no mercado local, e observam o percurso dos poetas no céu editorial da poesia e da sua premiação – da obscuridade à consagração e novamente de volta à obscuridade.
Como não poderia deixar de ser, falam da Inteligência Artificial também aplicada, claro, à poesia, do algoritmo poético e do ritmo do algoritmo nas playlists das plataformas de poesia.

◾ 14:30 e 16:00

PALAVRA FUTURO
Maria Caetano Vilalobos, Maze, Muleca XIII e Sir Scratch com curadoria de Alexandre Cortez / A Palavra
Sala Luís de Freitas Branco

«– E, agora, o que fazemos?
– Poesia. Esses canalhas não suportam poesia.»*

*De um cartoon de autor não identificado e visto na internet.

Celebração da palavra dita que une quatro vozes representativas da área da performance poética: Maria Caetano Vilalobos, Maze, Muleca XIII e Sir Scratch. Do rap à poesia declamada, do improviso à spoken word, PALAVRA FUTURO é um momento de reflexão e de empoderamento que promove o diálogo, a prática da cidadania e a riqueza da língua portuguesa enquanto fator agregador das comunidades que a partilham.

Num tempo em que a guerra e os conflitos entre povos são uma infeliz realidade, PALAVRA FUTURO demonstra que é possível contribuirmos para um mundo onde o poder da palavra seja também um caminho para a paz e para a harmonia entre os povos.

Apresentamos nesta sessão um programa com quatro artistas de diferentes origens, que têm em comum a paixão pela palavra e a partilha da Língua Portuguesa e que simbolizam também a multiculturalidade que nos caracteriza.

◾ 14:30

O ponto «G» palpita no Cosmos: a poesia de António Cabrita
Leituras por António Cabrita, Ana Zorrinho e Maria João Luís
Sala Almeida Negreiros

A sessão apresenta o trajeto de António Cabrita, crítico, poeta, ficcionista e dramaturgo.

Cabrita começou como o «benjamin» da geração Beat; embora o seu percurso tenha sido atípico e errante (nem lhe faltou a diáspora…), a sua poesia atravessou o arco dos últimos cinquenta anos com uma versatilidade e um amadurecimento crescentes, traduzíveis numa vocação metamórfica com recursos expressivos inadivinháveis à partida. Cabrita, hoje um poeta nos antípodas dos seus começos, soube mesclar erudição e destreza coloquial e cruzar um olhar melancólico com a ironia, qualidades que o tornaram uma presença singular e num inesperado sobrevivente, talvez pela transversalidade com que atravessa os céus múltiplos.

◾ 15:00

100 anos de Lisbon Revisited, de Álvaro de Campos
Pessoa revisitado por Lisboa revisitada
Por Fernando Cabral Martins com leituras de Paulo Pires
Sala Fernando Pessoa

«Outra vez te revejo Lisboa e Tejo e tudo –
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte»

Foram publicados dois poemas com o mesmo título, Lisbon Revisited, na revista Contemporânea: um em 1923 e outro em 1926, criando uma simetria poética entre ambos. O autor atribuído é o engenheiro naval Álvaro de Campos, que estudou na Escócia e trabalhou em Inglaterra. O poema Lisbon Revisited (1926) assinala o seu regresso definitivo a Lisboa. Os textos são exemplos centrais da poesia de Álvaro de Campos e mostram como a obra de Fernando Pessoa se encontra nela sintetizada e ampliada.

◾ 15:30

A poesia de Yvette Centeno
Com Jorge Reis-Sá e Rui Zink
Leituras de António de Castro Caeiro e Cucha Carvalheiro
Sala Fernando Pessoa

As homenagens são sempre tardias. Deveríamos homenagear várias vezes e logo que fizesse sentido – até antes, preventivamente, quando percebêssemos o que ia ser alguém.  A Yvette já deveria ter sido homenageada incontáveis vezes. Mas ainda bem que o está a ser neste dia. Pode parecer tarde – mas nunca é tarde para celebrar uma das mais importantes intelectuais portuguesas.

DEFINIÇÕES

A vida

Diria melhor o tempo?
Mas não
não era o tempo
era a vida
um somatório de tempos
e de espaços

a vida estava agora
de tal modo concentrada
que pouco lhe sobrava
ou mesmo nada

Poema retirado de Entre Silêncios (1997)

◾ 16:30

E se de repente o zeppelin das cinco passasse pelo buraco da agulha?
Com António Cabrita e leituras de poemas por Ana Zorrinho e Maria João Luís
Sala de Leitura

Em 1977, deseducada pelo magazine & etc. e pelas fantasmagorias de uma cidade que o 25 de abril despertou, uma nova geração Beat lança os seus primeiros livros. Só a beleza salvaria o mundo.
Na década seguinte, os Quatro Elementos Editores e a antologia Sião, arejavam o cânone – ovnis e zepelins passaram a vogar pelo buraco da agulha. Seguiram-se outras «radicalidades» como a dos Poetas sem Qualidade; enquanto o quotidiano e as vozes femininas constelavam no céu da poesia portuguesa. Que no século XXI, com a explosão da internet e das pequenas editoras, teve uma convulsão coperniciana: o horizonte passou a ser múltiplo.
Eis «um» trajeto para a poesia portuguesa dos últimos cinquenta anos, num punhado de poemas e numa miríade de autores. Com as leituras de António Cabrita e as de Ana Zorrinho e Maria João Luís.

◾ 16:30

Amor em Chávena Fria – Histórias do Melancómico
Nuno Costa Santos e uliarud uliarud
Sala Almeida Negreiros

«Sou melancómico. Não sei se no momento da morte vou fazer uma piada ou sentir o último peso da existência».
Eis a sentença-mote de um personagem que surgiu num supermercado quando o autor estava a pensar no sentido da vida, com dois sacos de plástico na mão, e que teve depois representações em livro, televisão e rádio.
Sempre com uma vocação para ser um peão de bairro, rodeado de figuras como o Lucindo da farmácia, o Rogério da retrosaria e a Graziela, florista e leitora de poesia antiga, o melancómico é um observador da cidade, dos seus amores e desamores e dos seus costumes, assumindo-se como parte de uma tradição que inclui Alexandre O’Neill, Mário-Henrique Leiria e Santos Fernando.
Habituado a trabalhar em colaboração, desta feita o melancómico fará uma leitura de um conjunto de histórias na companhia de uliarud uliarud, ilustrador com quem se cruzou num lisboeta lugar de bairro, um restaurante-tasca, que irá projetar um conjunto de imagens a remeter para um universo próprio, tão realista como onírico, atravessado de lirismo e humor.

◾ 17:00

A poesia de Alberto Pimenta
Rui Zink e Lúcia Evangelista
Leituras de Luís França
Sala Fernando Pessoa

Na obra de Alberto Pimenta, pulsam os efeitos de veneno e de cura, de crítica mordaz e vitalidade erótica. O modo singular deste autor destilar seu pharmakón será tema desta homenagem.

porco trágico I

conheço um poeta

que diz que não sabe se a fome dos outros

é fome de comer

ou se é só fome da sobremesa alheia.

 

a mim o que me espanta

não é a sua ignorância:

pois estou habituado a que os poetas saibam muito

de si

e pouco ou nada dos outros.

 

o que me espanta

é a distinção que ele faz:

como se a fome de sobremesa alheia

não fosse

fome de comer

também.

 

Poema retirado de Ascensão de Dez Gostos à Boca (1977), 2.ª Edição in Tetrapharmakos (2025:174)

◾ 17:30

Enclave
Maria Lis
Sala Almada Negreiros

O que aconteceria se, de algum modo, puséssemos o leme nas mãos das crianças, oferecendo-lhes os nossos restos e sobras, perguntando-lhes: o que fazemos agora? Como poderíamos raspar na matéria outras formas de mundo?
Maria Lis foi à procura de objetos sem uso, remetidos aos dias passados (uma peneira, uma caixa de comprimidos, uma balança para cartas, um limpador de espingardas, algumas pedras, uma goteira e outras miudezas) e entregou-os a várias crianças para lhes perguntar: e com estas coisas que já temos também podemos fazer outro mundo? Trata-se de tentar raspar com as unhas uma forma nova num material antigo, esculpir maneiras de continuar apesar dos tantos entraves.
Entre o México e os Estados Unidos, milhares de pessoas trepam à garupa de comboios traçando no mapa um caminho até ao que ainda poderá vir ou o que pode vir a ser. Muitas destas pessoas são crianças. Muitas delas são capturadas na fronteira e conduzidas para centros de detenção temporária, aí deixadas a aguardar por uma audiência onde uma sequência de perguntas lhes é aplicada – para que, de acordo com a lei, se averigue o destino a dar ao «problema». Valeria Luiselli relatou a sua experiência enquanto intérprete destas crianças nestes interrogatórios, em Tell Me How It Ends e no romance Deserto Sonoro.
Maria Lis e Ana Filipa Correia propõem um Enclave e um caminho até lá. Numa geografia de entrelinhas, de silêncios e de mãos-na-massa, Maria escreve sobre a genialidade das crianças quando respondem a realidades tremendas, comboios, viagens e cresceres, sobre o que se leva no saco ou nos bolsos e sobre o que se deixa para trás. Ana Filipa fotografa os entretantos, as possibilidades, o jogo entre o visível e o invisível, a sua força e face macia – uma forma de tensão que desenraíza e procura, assim, escutar o que as palavras dizem a partir de um lugar de abertura e alteridade.

Leitura integral do livro Enclave com projeção das fotografias que o compõem.

◾ 18:00

Canções das Cidades
Marco Oliveira e José Peixoto
Sala Sophia de Mello Breyner Andresen

Marco Oliveira (voz e guitarra) e José Peixoto (guitarra) apresentam uma escolha de
canções que celebram cidades. Canções que, com o tempo, passaram a fazer parte das cidades que celebram. Canções que, cantando, percorremos como parte inseparável dessas cidades.

◾ Horário a definir

Poemacto
Alexandra Pestana, António Cardoso, Beatriz Cabo, Carolina Cardoso, Carolina Lopes, Diogo Vitorino, Lara Caiado, Lucas Melo, Pedro Cortez, Sara Alves, Tomás Gabriel (alunos) e Sara de Castro (professora)
Sala a definir

«Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.
Uma vara canta branco.
Uma cidade cantas luzes.»

Poemacto, Herberto Hélder

Num gesto coletivo e inesperado, onze alunos finalistas da ACT – Escola de Actores convocam poemas de poetas portuguesas contemporâneas para fazer da poesia presença e afirmação. Estas vozes emergentes atravessam o espaço público como quem procura, na poesia, uma forma de existir e de se fazer ouvir.

◾ 11:00 às 19:00

Canto do leitor anónimo
Sala Vianna da Mota

O Speakers’ Corner ou o Recanto do Orador do Dia Mundial da Poesia onde qualquer um pode ler o que quiser para quem o quiser ouvir.

◾ 10:30 às 19:00

Feira do Livro de Poesia
Receção do Centro de Congressos e Reuniões

Conversas com autores e editores.

Almedina
Bertrand
Greta
Ler Devagar
Snob
The Poets And Dragons
Tinta-da-China

 

«Como naquele poema do Miguel Manso que diz que “estão a construir um bar / e começaram pela música”, é pela poesia que a comunidade começa.» – Nuno Artur Silva

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