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Debate de encerramento
O Mundo nos Nossos Olhos

CCB

© Tiago Casanova

© Tiago Casanova

“Descrição é projeto” é uma afirmação carregada de potencial transformador. Perante os atuais sistemas de planeamento e gestão urbana – tantas vezes considerados relativamente duros, excessivamente tecnocráticos pela carga legislativa que lhes acode e susceptíveis à oscilação circunstancial das políticas que lhes dão substância – os modelos de representação e descrição da cidade apresentados n’O Mundo nos Nossos Olhos podem oferecer estratégias alternativas de pensamento e ação sobre a cidade e a paisagem contemporânea?
Será que a arquitetura ainda pode oferecer modelos alternativos aos sistemas técnicos de planeamento urbano que se desenvolveram ao longo do século XX? Será que a cidade e a paisagem se podem pensar a partir da sua forma? Ou estarão condenadas à informalidade dos sistemas participativos, da especulação financeira ou da rentabilidade a curto termo do capital?

Debate com Paulo Moreira e João Gomes da Silva

A antecipar o encerramento da exposição O Mundo nos Nossos Olhos, o debate entre Paulo Moreira e João Gomes da Silva focou-se na relação entre planeamento e projecto. Se o mote da exposição eram os sistemas de descrição e representação da cidade e do território, apresentados a partir de vários exemplos díspares (tanto complementares como contraditórios), os seus conteúdos permitiram tecer considerações sobre o potencial operativo e transformador destas estratégias de produção arquitectónica.
“Toda a descrição contém em si um sentido crítico e só há projecto a partir da mobilização dessa visão tendo em vista a acção.” Esta afirmação, subtil, do arquitecto paisagista João Gomes da Silva deu o tom, e a crítica, à expectativa talvez demasiado optimista do repto do debate. Ou seja, as descrições apresentadas na exposição só têm um sentido operativo se considerarem, a montante, uma compreensão das estruturas de paisagem e o enquadramento social em que se inserem e, a jusante, os instrumentos necessários à sua própria implementação. Para além da boa-vontade, da competência visual e da ambição estética que lhes estão subjacentes, os conteúdos da exposição apenas mostram um passo de um processo longo e articulado. Mais do que assentar na virtude da representação, a capacidade transformadora da arquitectura está na conquista de uma posição estratégica entre planeamento e projecto. Se os sistemas de representação podem ajudar a configurar essa posição e, porque imbuídos de sentido crítico, permitem construir e partilhar o próprio sentido da transformação, são apenas um passo numa actividade que exige uma articulação institucional e cultural que é deveras complexa.
Em contraponto, a experiência de Paulo Moreira no bairro da Chicala, um bairro da cidade informal de Luanda recentemente devorado pela especulação imobiliária, permitiu trazer ao debate uma possível metodologia de acção. Nessa metodologia, a representação joga um papel duplo, na capacidade de envolvimento das populações no reconhecimento das características e especificidades do seu próprio habitat e, por outro lado, na comunicação a outros grupos de interesses das qualidades desse habitat e das expectativas da população. O arquitecto, capaz de dominar os sistemas de representação, desempenha um papel que é mais de mediação e articulação institucional capaz de conjugar vontades e ultrapassar o imobilismo latente em tantas sociedades. A experiência do seu projecto para o conjunto do Monte Xisto, em Matosinhos, serviu como exemplo concreto (que ainda carece de ser levado às últimas consequências) do potencial da sua proposta metodológica.
Se o debate não tinha a intenção nem a capacidade de ser conclusivo, permitiu aflorar questões abertas pela exposição. A principal será, talvez, a frustração contemporânea perante os processos de transformação da cidade e da paisagem. Entre planeamento e projecto há uma pulsão transformadora dominada por forças que ultrapassam o controle de qualquer um. Essa incomensurabilidade, que torna ridículas quaisquer ambições totalitárias, sublinha o papel do tempo. É no tempo, com o tempo e através do tempo que as coisas construídas vão ganhando e perdendo forma. E é o tempo que se encarrega de gerir as indeterminações dos planos e as sobredeterminações dos projectos. Esse processo transformador, que exige discernimento, é conduzido por múltiplos actores: dos projectistas aos técnicos, da população aos políticos, dos investidores aos construtores. No debate ressaltou a importância crucial da representação na condução desses processos: todas as decisões são subjectivas e a representação visual contém em si uma subjectividade própria, capaz articular os múltiplos actores em torno de uma visão comum. O gérmen da acção não está na representação, mas a representação (por ser subjectiva) contribui de modo inequívoco para dar sentido e objectivo à acção transformadora da arquitectura.


7 janeiro 2017 | 17:00

Garagem Sul
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