B24 - Susana Gaspar | Rita Blanco | Nuno Vieira de Almeida

Shakespeare na Música

Susana Gaspar

Susana Gaspar

Nuno Vieira de Almeida

O tratamento musical da obra de William Shakespeare não teve a sorte de alguns outros poetas maiores. Grande parte dos compositores agarrou apenas na trama para fabricar objectos musicais que não correspondem em grandeza ao tamanho global da obra do grande escritor. Poetas como Goethe ou Verlaine tiveram mais sorte e os seus textos foram postos em música de forma exemplar por Schubert, Wolf, Debussy ou Fauré. Basta pensarmos na diferença entre o Romeu e Julieta de Shakespeare ou o do Gounod para nos darmos conta desse facto. Há no entanto excepções e todo o Verdi, a culminar no Otello, e o Romeu e Julieta de Berlioz fazem jus ao autor que os inspirou.
Ao organizar este recital não pude deixar de ter isso em mente. Pus-me também frequentemente a questão: como foi possível que nenhum compositor maior, a começar por Britten, tivesse deixado de fora a obra-prima poética que são os sonetos de Shakespeare?
Como parti do pressuposto da sua inclusão achei que era possível imaginar um recital dentro do qual os sonetos funcionariam como uma espécie de reflexão ao muito que é dito nas peças. É por isso que usei bocados de texto de algumas peças sem ter preocupação com o seu seguimento lógico/dramático. Dois fragmentos do Hamlet aparecem por isso propositadamente desirmanados. Aproveitei compositores que puseram em música fragmentos poéticos de peças tal qual como foram escritas, em tradução como é o caso de Schubert e Strauss, ou no original como faz Haydn e Korngold. Na impossibilidade de usar um fragmento do Romeu e Julieta de Berlioz utilizei uma fantasia baseada na Ophelia e escrita para canto e piano.
Quis começar e terminar este recital com duas obras que partem de Shakespeare sem verdadeiramente o seguirem à letra: a primeira é a canção de Purcell If music be the food of love, cujo texto de Henry Heveningham cita a primeira linha da Twelfth Night; essa primeira linha é tão apropriada e bela que me deu o título do recital. Termino com a Avé Maria do Otello de Verdi. Na peça homónima, Desdémona não tem nenhuma Avé Maria e limita-se à canção do Salgueiro. No entanto a invenção de Boito é tão genial e a música de Verdi tão completamente extraordinária que senti que, apesar das palavras não serem de Shakespeare, a homenagem a este não poderia ser maior na condensação da doçura e bondade da personagem feita por esses dois outros génios: Boito e Verdi.
Utilizei as traduções de Vasco Graça Moura dos sonetos pela sua intrínseca qualidade e porque acho que uma homenagem ao grande escritor e teórico é mais do que merecida. As pessoas são depressa esquecidas. Tenho pena desse facto.


NUNO VIEIRA DE ALMEIDA
O autor escreve segundo a antiga ortografia
 


Shakespeare na Música

Henry Purcell / Michael Tippett If music be the food of love; An Epithalamium
Franz Schubert An Sillvia
Hector Berlioz La mort d’Ophélie
Richard Strauss 3 Ophelia Lieder
Josef Haydn She never told her love
Erich Wolfgang von Korngold Come away, Death; For the rain, it raineth every day; Desdemona’s song
Giuseppe Verdi Ave Maria (Otello)

Susana Gaspar soprano
Rita Blanco recitação
Nuno Vieira de Almeida piano



Produção | CCB


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29 abril 2017 | 18:00

Sala Almada Negreiros
M/6
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