Dias da Música em Belém no Museu Nacional de Arte Antiga

Toy Ensemblee ©Fernando Lapa

Toy Ensemblee ©Fernando Lapa

No dia em que os Dias da Música em Belém regressam ao Centro Cultural de Belém sob a inspiração do mundo fantástico de Hieronymus Bosch (c.1450-1516), apresentamos no Museu Nacional de Arte Antiga, onde se encontra um dos trípticos mais marcantes do pintor, As Tentações de Santo Antão (1495-1500), um pequeno concerto centrado noutra trilogia, a das Barcas de Gil Vicente (c.1465-c.1536).
A atriz e encenadora Sara Barros Leitão e o compositor Fernando Lapa foram desafiados pelo CCB a criarem, com o ator João Castro e o Toy Ensemble, três espetáculos focados nos três Autos das Barcas de Gil Vicente: Auto da Barca do Inferno, Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória, que serão apresentados nos dias 27, 28 e 29 de abril no CCB.
No Museu Nacional de Arte Antiga, os intérpretes levantam um pouco do véu do que se tratarão estes concertos, apresentando pequenos excertos de cada Auto. 

Fernando Lapa compositor
Sara Barros Leitão adaptação/conceção, atriz
João Castro ator

Toy Ensemble
Jed Barahal violoncelo
David Lloyd viola e violino
Ricardo Alves clarinete e clarinete baixo
Magna Ferreira voz e percussão
Christina Margotto piano

Teresa Arcanjo assistente de cena
Agradecimentos Teatro Nacional de São João – Porto / Escola dos Gambozinos / Escola Guilhermina Suggia

Gil Vicente (c. 1465-c. 1536)

Auto da Barca do Inferno
O Auto da Barca do Inferno é o primeiro espectáculo deste tríptico composto pelo Auto da Barca do Purgatório e pelo Auto da Barca da Glória. Terá sido apresentado pela primeira vez na corte, em 1571, sendo, talvez, a obra de Gil Vicente mais presente na nossa memória colectiva. Aqui terá lugar uma versão adaptada, em que texto e música se fundem no mais harmonioso canal de expressividade. Mais do que procurar a actualidade da obra, uma vez que é inevitável que esta actue em nós e no nosso tempo - não estivéssemos nós a falar de pecados e moralidade nas classes - queremos descobrir uma outra forma de a comunicar.
Inferno mostra o destino das almas num lugar de condenação ou de glória e apresenta uma grande quantidade e diversidade de personagens, sugerindo uma construção mais policromática e contrastada, a partir dos diferentes tipos que articula. E apesar de o viver de cada personagem ser simbolizado pelo(s) objectos(s) que traz consigo, nesta proposta iremos levar isso ao limite, tornando os adereços nas próprias personagens e permitindo aos intérpretes poderem ser agentes de voz ou musicalidade que dá vida aos diferentes arquétipos. 
Auto da Barca do Inferno é um espectáculo de um só fôlego, onde somos constantemente surpreendidos com a entrada de novas personagens, com argumentações, súplicas, acusações e condenações. É de um ritmo fervilhante e divertido, mas ao mesmo tempo acutilante e mordaz, como não podia deixar de ser. – SARA BARROS LEITÃO | A AUTORA ESCREVE SEGUNDO A ANTIGA ORTOGRAFIA

Auto da Barca do Purgatório
Purgatório retoma o motivo trabalhado em Inferno, mas constitui uma unidade autónoma. «São representações distintas de almas humanas, num conjunto que se vai formando: Purgatório conhece Inferno, Glória conhece Inferno e Purgatório», como diz Cardeira Villalba.
Purgatório terá sido apresentado na capela de um hospital, para que os doentes pudessem assistir ao auto, comportando, assim, a função didática de ser apresentado a quem está a sentir de perto a doença ou a morte. 1518 é o ano a que se atribui a primeira apresentação pública desta obra e é também o ano da peste em Lisboa, pelo que a actualidade da doença é tão pertinente que se imiscui discretamente no auto.
«Purgatório é, simultaneamente, um espaço e um tempo, o tempo de espera num cais de embarque. É esperar e não embarcar. Os três autos com barcas passam-se no Purgatório, mas é em 1518 que este surge como uma instância nova, um destino (provisório) que não é o Paraíso nem o Inferno e para onde não há barca – há só ficar em cena na margem do rio, à espera de outro destino que há-de vir depois do fim do auto», como escreve José Camões.
Assim, O Auto da Barca do Purgatório tem uma construção mais linear e alargada, sugerindo movimentos horizontais e sustentados, com alguns cirúrgicos pontos de contraste ou de ruptura. Esta dinâmica energética reflectir-se-á na proposta cénica e sonora, que, apesar de beber da mesma estética que acompanha o tríptico, torna a obra absolutamente distinta das demais. – SARA BARROS LEITÃO | A AUTORA ESCREVE SEGUNDO A ANTIGA ORTOGRAFIA

Auto da Barca da Glória
O Auto da Barca da Glória, último deste tríptico, o único que foi escrito em Castelhano e que, por isso, se distingue sonoramente dos anteriores. Atribui-se a sua primeira apresentação a 1519, onde Leonor de Áustria terá sido espectadora. Por essa razão, «as dignidades altas e os Anjos, mas também o Diabo e a Morte, falam a língua da nova rainha», como escreve Ernestina Carrilho.
Glória é um desfile de figuras em que se apresentam almas depois da morte, sendo que a Morte, desta vez, ganha um corpo vivo. «Cada uma das altas dignidades entra em cena pela sua mão, ao ritmo de um movimento de ir e vir, uma imagem teatralizada da Morte como inexorável ceifeira de vidas», que inspira o ritmo do espectáculo. Organizado de forma estilizada, faz suceder personagens da área do poder, numa sucessão hierárquica. A sugestão é de movimentos direcionais ascendentes, enfatizando a progressão em crescendo. Será curioso explorar as possibilidades de um texto em castelhano traduzido em música e na barca que mais referências tinha em si encerrada elementos cénicos, ser forçada a um jogo que privilegia a economia de recursos físicos.
Glória terá sido apresentada por ocasião da semana santa, e apesar de não parecer ser um auto muito adequado à realidade litúrgica, todos localizam a sua representação nos dias de redenção. Acontecimento que, curiosamente, se irá repetir na apresentação deste espectáculo numa tarde de domingo, não muito longe da Páscoa, sob o mote: Castigos, Pecados e Graças Divinas. – SARA BARROS LEITÃO | A AUTORA ESCREVE SEGUNDO A ANTIGA ORTOGRAFIA


26 abril 2018 | 18:00

Museu Nacional de Arte Antiga
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