
O espectáculo Bela Adormecida, encenado por Tiago Rodrigues foi o gesto fundador da Companhia Maior. Este é um projecto artístico que aposta na ideia de que a criação contemporânea nas artes performativas pode desenvolver a sua capacidade de pesquisa, experimentação e inovação através de uma estratégia inclusiva de artistas mais velhos e experientes. A Companhia Maior é composta por intérpretes profissionais da área do teatro, dança e música, todos com mais de 60 anos. O elenco do primeiro espectáculo da Companhia foi composto através da realização de um workshop/audição no Centro Cultural de Belém, entre 4 a 14 de Março de 2010, dirigido por Tiago Rodrigues.
A selecção dos candidatos teve por base um cruzamento assente na interdisciplinaridade, tendo o elenco do primeiro espectáculo da Companhia Maior sido bastante eclético, tentando fundir tendências mais eruditas com outras mais populares nas diversas áreas artísticas que o incluem. Após o primeiro Workshop/audição, seguiram-se mais três Workshops/formação nas áreas de dramaturgia, música e dança contemporânea, orientados respectivamente por Jacinto Lucas Pires, João Lucas e Clara Andermatt. Estes Workshops foram frequentados por 14 elementos que acabaram por constituir o espectáculo Bela Adormecida que estreou no Pequeno Auditório no dia 28 de Outubro de 2010. Após os muito bem acolhidos quatro dias de exibição no Centro Cultural de Belém, o espectáculo Bela Adormecida fez uma grande digressão nacional, recebida por muito mais espaços do que os inicialmente previstos tendo gerado um notório clima de grande interesse pelo projecto artístico e pelo tema a ele inerente.
Bela Adormecida passou cronologicamente desde Dezembro de 2010 a Maio de 2011 pelo Teatro Municipal de Bragança, Cine-teatro de Estarreja, TEMPO em Portimão, Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, Teatro Viriato em Viseu, TECA no Porto, Teatro Micaelense em Ponta Delgada, Teatro Virgínia, em Torres Novas, Teatro Municipal da Guarda e Casa da Cultura, em Alfândega da Fé. Sendo a Companhia Maior uma Associação Cultural fundada com a intenção de dar voz e lugar artístico a uma geração Maior, valorizando a maturidade e a diferente comunicação artística e colateralmente sociológica que artistas maiores de 60 anos podem oferecer à comunidade é, sobretudo, na digressão que a sua missão ganha sentido.
Agora, a Companhia Maior reinicia a sua temporada do mesmo modo que em 2010. Novos Workhops abertos por candidatura pública, abriram as portas a novos elementos sendo a equipa artística da Companhia Maior agora constituída por 18 artistas maiores.
Após a concretização dos quatro Workshops de Audição/Formação, parte do grupo de artistas integrará a criação da coreógrafa Clara Andermatt, num espectáculo com estreia a 8 de Dezembro no Centro Cultural de Belém, seguindo-se uma digressão, entre Janeiro e Maio de 2012.
A Companhia Maior deseja fazer a ponte entre instituições culturais, permitindo que diversos teatros sejam parceiros fixos, tanto no plano do acolhimento como da co-produção de criações da companhia, ajudando a pensar e a concretizar o futuro deste projecto. Sabemos também que, para lá do discurso artístico de cada espectáculo que será criado, há um sinal claro que, com este projecto, as artes estão a dar aos diversos sectores da sociedade portuguesa no que toca à dignificação e intervenção activa de toda uma faixa etária. Estamos convictos de que, sendo essencialmente um projecto de criação artística, a Companhia Maior pode ser um símbolo de uma mudança mais profunda e abrangente na sociedade.
Por esse motivo, existe na Companhia Maior um Conselho Consultivo, cuja função é a de assegurar uma discussão contínua sobre o funcionamento da companhia, a sua missão artística e o seu impacto, que transborda claramente as fronteiras estritas da criação artística.
Este Conselho Consultivo é presidido por Daniel Sampaio e conta com Marçal Grilo, António Mega Ferreira e Jacinto Lucas Pires, um grupo abrangente de personalidades da sociedade civil portuguesa que é também garante de comunicação dum discurso sólido acerca deste projecto junto do público, comunicação social e instituições.
Sobre a Companhia
▪ O envelhecimento das populações é um dos grandes problemas das sociedades contemporâneas. O aumento da esperança de vida, a diminuição das taxas de natalidade e a migração de muitos jovens para outros países, são alguns dos factores que contribuem para a maior percentagem de idosos nas nossas comunidades.
Cada vez se torna mais necessário que as sociedades actuais se preocupem com a qualidade de vida das pessoas mais velhas. Todos os estudos indicam que se mantivermos activas as pessoas em idade de reforma, estaremos a contribuir para o seu bem-estar, ao mesmo tempo que aproveitaremos muitas das suas potencialidades. E, ao contrário do que por vezes é afirmado, a retirada dos mais velhos do mercado do trabalho não tem contribuído para a criação de mais empregos para os mais jovens.
No campo artístico, o êxito é com frequência associado à juventude, sendo esquecido o contributo que pode ser dado por artistas mais velhos de diversos sectores que se encontram em boas condições de saúde física e mental e que, através da sua experiência, podem contribuir para espectáculos de qualidade.
A Companhia Maior pretende ser um local de criatividade permanente para os artistas mais velhos e contribuir para um espírito de solidariedade entre as gerações.
Daniel Sampaio
Prof . Catedrático de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Lisboa
Presidente do Conselho Consultivo da Companhia Maior
▪ Não é só porque nos aproximamos da idade maior que nos chega esta vontade de transformar experiências longas e ricas de vida em novas formas de expressão artística. Não é só – mas também. A ideia de que as sociedades em que vivemos estão a adaptar-se a uma nova estrutura etária implica uma atenção redobrada a esta faixa crescente da população, cujas vivências têm que ser mantidas (mais do que integradas) na vida activa e criadora. Em 2050, nos países industrializados, o número de idosos obrigará a que se encontre uma nova denominação para abranger estas camadas às quais deixou de aplicar-se o verso célebre de Dante: “o meio do caminho da nossa vida” já não serão os 35 anos, mas, mais que previsivelmente, os 45 – porque a expectativa de vida terá crescido até aos 90 anos de idade.
É da nossa vida, assim vista em perspectiva, que quer falar a Companhia Maior.
Composta por artistas de idade superior a 60 anos, ela visa associar, desde o início, elementos mais jovens, de forma a assegurar uma harmoniosa convivência entre gerações, propondo-lhes a releitura de alguns dos lugares comuns da nossa cultura. E o seu programa não conhece limites, a não ser os que a imaginação e a vontade dos seus elementos queiram estabelecer.
Uma companhia de velhos? Ora, velhos são os trapos!
E mesmo esses…
António Mega Ferreira
Presidente da Fundação Centro Cultural de Belém
Membro do Conselho Consultivo
▪ Empenharmo-nos nesta causa de dar voz à criatividade de uma idade maior não é só um dever. É sobretudo uma janela aberta para um potencial artístico que, numa era onde se preza a jovialidade da imagem e da atitude, pode ser de uma frescura arrebatadora, porque é pleno de VIDA na verdadeira acepção da palavra.
O cerne do projecto desta companhia, cuja ideia data de 2007, é o aproveitamento da experiência acumulada de artistas oriundos das diversas vertentes das artes performativas. Trata-se de valorizar a maturidade, os saberes forjados e aperfeiçoados ao longo do tempo e o intenso desejo de comunicar desta fase da vida, em que a reflexão e a ponderação já tiveram mais espaço para vaguear, mais tempo para duvidar, equacionar, concluir...
O tempo, a memória e a experiência são elementos chave neste projecto de artistas que, em período de balanços e avaliações, se encontram também na fase mais propícia ao estabelecimento de diálogos e entendimentos: entre diversas maneiras de fazer, entre diferentes ofícios, mas também entre tempos e gerações diferentes. São artistas intervenientes a quem a vida não roubou a insatisfação e a curiosidade e, por outro lado, cuja idade já nada tem a ver com oportunismos ou efeitos fáceis.
A reacção do Centro Cultural de Belém a esta proposta foi imediata e de grande entusiasmo, bem como a de diversos agentes culturais que foram sendo contactados. À medida que fomos auscultando estas opiniões, foi crescendo em nós alguma ansiedade perante as expectativas do projecto. Conhecíamos bem, não só as responsabilidades artísticas, como as sociais e éticas que nele estavam implícitas, mas o carácter inédito desta iniciativa exigia de nós o esforço e, mais do que isso, o engenho de a transformar numa experiência tão exemplar quanto possível.
Foram dois anos de maturação e de trabalho de campo, onde as práticas de uma Company of Elders, em Inglaterra, de um Nederlands Dance Theater, na Holanda e a do The Bealtaine Festival, na Irlanda serviram como bons pontos de partida. A adaptação a uma realidade artística e social portuguesa protagonizou a fase seguinte.
Os pareceres de amigos e profissionais foram de grande importância, sobretudo os de Tiago Rodrigues que esteve presente quase desde o início e cujo envolvimento foi fundamental.
Pensamos neste projecto como extravasando qualquer personalidade ou instituição.
É no CCB que ele nasce, e é também a casa que o pode acolher, mas julgamos que só será MAIOR se verdadeiramente nos pertencer a todos. A presença de um conselho consultivo, tão habitual nas formações anglo-saxónicas e constituído por personalidades da sociedade civil, é uma das respostas a esta intenção.
Luísa Taveira
Direção da Companhia Maior

Próximos espetáculos
Teatro Municipal de Almada Temporada 2012
Sala Experimental
21 e 22 janeiro 2012
sábado dia 21 às 21:30 | domingo dia 22 às 16:00
Coimbra | Teatro Académico Gil Vicente
26 de abril
Torres Vedras |Teatro Cine de Torres Vedras
28 de abril
Aveiro | Teatro Aveirense
19 de maio
Espetáculo em estudo
Participação no Congresso Mundial do Envelhecimento Activo (RUTIS) – na Fundação Calouste Gulbenkian – 18 abril – 18h30


Mais info
Neste espectáculo, Clara Andermatt irá experimentar uma abordagem distinta daquela que tem vindo a explorar em trabalhos como Natural ou Durações de um Minuto nos quais a faixa etária dos intérpretes e a sua experiência de vida eram por si só pretexto e mote para o desenvolvimento da peça.
Desta vez, pretende-se retirar a tónica da idade dos intérpretes, afastando-se da evidência sem, no entanto, desperdiçar as características que são indissociáveis das biografias destes indivíduos: a experiência, a sabedoria, a vulnerabilidade, o respeito, a realidade de quem nasceu na primeira metade do século XX.
Andermatt irá explorar a noção do belo, a relação dos corpos com os objectos e os sons. Terá como suporte dramatúrgico textos dos próprios intérpretes; A criação da banda sonora assumirá um papel fundamental: a música das palavras, a música dos objectos, o ritmo do pensamento, o ritmo dos corpos.
Num espaço sem referências, branco, a cor que reflete todas as cores. O vazio e a luz, clareza máxima. Espaço despido, onde tudo o que o habita toma uma dimensão recortada, pormenorizada, ampliada, tal como estes intérpretes o merecem, tal como a coreógrafa os pretende mostrar.
O trabalho de Andermatt assenta numa base de improvisação num processo que consegue extrair de cada um o material coreográfico e dramatúrgico que virá depois a constituir o conteúdo da peça. De alguma forma podemos dizer que Clara Andermatt personifica os intérpretes ou, aos olhos do espectador, humaniza as personagens.




