GALERIA MÁRIO CESARINY
De 17 de Novembro a 14 de Dezembro
Inauguração às 19:00
Segunda a sexta-feira das 14:00 às 18:00
Sábados, domingos e feriados das 14:00 às 20:00
ENTRADA LIVRE
Setas na vulgaridade
João Paulo Cotrim
O desejo daquele que desenha a carne das imagens contém muito do desespero de Noboru, miúdo que castiga a mãe nua com o olhar, logo nas páginas iniciais de O Marinheiro que perdeu as graças do mar. Só mesmo frente ao espelho a mãe se tornava inalcançável.
«Em noites de luar a mãe apagava todas as luzes e ficava nua em frente ao espelho! Ficava então acordado durante horas, arrasado por visões do vazio. Tanto nos lugares atingidos pelo luar como nos que uma sombra macia velava, reinava uma vulgaridade tal que preenchia o mundo inteiro.»
Aquele que desenha procura livrar o mundo inteiro da vulgaridade, não tanto preenchendo vazios através de visões ou sonhando a nudez face ao espelho, mas afastando o véu do branco a golpes de pincel de modo a deixar-nos entrever o supremo vazio. Tarefa, está bem de ver, assaz perigosa.
Tiago Manuel – que vem construindo uma fascinante narrativa a partir de um desdobramento em múltiplos seres criadores de imagens potentes – escolheu dois livros fulcrais no rasgar mishimiano: Confissões de uma máscara, dos iniciais e talvez aquele que mais ajudou a esculpir o corpo mediático do autor; e O Marinheiro que perdeu as graças do mar, do período da maturidade, seguramente uma das portas de entrada na sua natureza interior. De ambos fez as lâminas de uma tesoura que esventra a obra, não para a destruir, mas para a homenagear fazendo-a sangrar imagens. A ferida que abre faz-se porta de entrada na carne, na natureza da criação.
Para Tiago Manuel, como para Yukio Mishima, a natureza não se confina ao lugar de grande cenário, pano de fundo, antes entra na massa compósita das coisas, dos seres, das emoções e dos pensamentos. Na mais divina, portanto artística, das liberdades, desafiando medos e morais, compõe de um modo orgânico estranhos e, ao mesmo tempo, reconhecíveis lugares e figuras. Junta fragmentos para despertar símbolos poderosos. Vejo daqui pálpebras que se cristalizaram em prisões, erecções de punho de sabre, corpos ocos. O gesto técnico é devedor do desenho e da pintura, mas parece beber no morphing da animação, nas anamorfoses fotográficas o movimento que as atravessa. Confirma-se assim viajante entre tradições, entre passados e presente, invocando não tanto referências, mas, mais uma vez, corpos e naturezas.
Não parece justo falar de ilustração, mas de um processo que, através da química das
composições, faça as imagens explodir em frente dos nossos olhos, cegando-nos as ideias, embaciando lâmpadas. Só assim nos preparamos para o supremo vazio.
Não será por acaso que tal resulta das Confissões… , o livro mais despojado, frio até nas
superfícies descritivas, e aquele que é movido pela «urgência da palavra». A vontade de
mostrar (imagens) veste-se com a vontade de contar (palavras).
O Marinheiro… surge como em narrativa gráfica desdobrada em ciclos concêntricos, ondas rebentando em marés de palavras, de signos caligráficos, que se espraiam pelas imagens ora fragmentadas em olhos bocas rostos ora recompostas em invocações de temas e figuras nipónicas. E símbolos, uma vez mais. A morte não nada longe, a sensualidade respira-se e o sofrimento faz as vezes de chão. Depois há o mar e as âncoras no peito.
Como se tal não fosse perturbação suficiente, aquele que desenha desafia-nos a tirar a
roupa/máscara em face de um espelho, a banharmo-nos no luar da página e a empunhar a caneta/sabre para escrever/desenhar «uma sombra macia». Valha-nos S. Sebastião, o do tronco nu em oferenda mística às setas do mundo! Por uma vez, resgatemo-nos, como aquele que soube escrever.
Mishima desenhou com a própria carne um afiado manifesto contra a vulgaridade. Não o do fim, mas o outro o primordial, revelado por estas imagens: um sabre de palavra.