Se é verdade que a música não carece de explicações para ser apreciada, também é verdade que a fruição de uma obra musical pode ser muito enriquecida se se tiver o privilégio de assistir a um concerto sentado ao lado de um conhecedor.
O enquadramento de uma obra na sua época, o momento da vida do compositor em que foi composta, uma história real ou fabricada em seu redor, a pessoa a quem foi dedicada, uma chamada de atenção para um detalhe num instrumento ou um pormenor sobre a arquitectura da obra são apenas alguns dos aspectos que podem em muito sublimar a nossa escuta.
E porque um dos maiores prazeres da música reside no dá-la a conhecer aos outros, em cada Concerto à Conversa o pianista Miguel Henriques, junto com os músicos e ainda um convidado especial, procurarão contagiar o público com a excelência da sua música e com o entusiasmo das suas conversas.
Em 1809, ano em que morre
Franz Joseph Haydn (1732-1809) e nasce
Felix Mendelssohn Bartholdy (1809-1847), vive-se na Europa uma época de transição profunda continuada, social e cultural. A burguesia ousa finalmente assumir, de pleno direito, o poder político, já que o desejado (e em boa parte já evidente) domínio sobre a economia a isso exigia. Nas Artes, o Classicismo cede o passo a um novo movimento que se afirma precisamente na necessidade de rejeição dos valores cultivados pela aristocracia. Este novo movimento, a que se dará o nome de Romantismo, tem uma base social burguesa, curiosamente, a mesma classe que, no século anterior, impulsionou a descoberta desses mesmos valores do Iluminismo, agora caducos porque apropriados pela aristocracia. Este virar de página é claramente ilustrado na música de Haydn e Mendelssohn. Em 1809, o grande escritor
Johann Wolfgang Goethe (1749-1832) encontra-se a viver em Weimar. Desde 1774 que a sua extraordinária figura de pensador é reconhecida, em particular pelo seu papel no desenvolvimento do movimento literário pré-romântico alemão Sturm und Drang (“tempestade e tensão”,1760-1780), e mais tarde no movimento conhecido por Weimar Clássica (1788-1832). O seu contributo na evolução estética e filosófica da literatura alemã deste período é nuclear: por um lado, pela influência que recebe de toda uma plêiade de escritores e filósofos oriundos dos Iluminismo e Empfindsamkeit (sentimentalismo); por outro, pela notável projecção que a sua obra exerce no pensamento e nas obras dos seus contemporâneos, tais como nas novas correntes, nomeadamente do Idealismo e do Romantismo. Nesta meada de eventos e ciclos simultâneos assiste-se a uma verdadeira contaminação, a que nenhuma expressão artística escapa, pelas questões e reflexões suscitadas por pensadores e filósofos. Como resultado desta “epidemia” estética as próprias Artes aspiram a uma aproximação entre si. Os músicos e os poetas convivem em tertúlias, partilhando inspirações e inquietações. Progressivamente o Romantismo vai-se instalando com a ideia comum de que o Conhecimento e a Razão não bastam na explicação do todo. A Arte vê alterado o seu papel tradicional e o seu estatuto, tanto na função, como no convívio social. Os valores do Classicismo são abertamente rejeitados. A observação contemplativa do colectivo é substituída pela especulação obsessiva sobre o individual. Por muito exterior ou longínquo que seja o seu pretexto ou contexto, a experimentação artística procura agora o encontro do indivíduo consigo mesmo. O filme desta “grande mudança” é perceptível na leitura de alguns textos fundamentais de alguns escritores como Goethe, Schiller e, os mais tardios, Heine, Hölderlin, Kleist, etc.; e igualmente pela audição de obras musicais de referência do repertório clássico — Haydn, Mozart e Beethoven — e romântico — Mendelssohn, Schubert, Chopin e Schumann —, desde as pequenas peças de tipo miniatura para piano solo, às canções para canto e piano, às obras mais extensas como sonatas, obras de música de câmara, obras para coro “a capella”, e ainda obras concertantes e sinfónicas. Como exemplo paradigmático desta revolução refira-se o caso de Beethoven, um dos expoentes máximos da música do período clássico, que em poucas décadas — 1.ª Sinfonia (1800), 9.ª Sinfonia (1824) — arrasa os limites formais da escrita desse estilo, extremando o âmbito e o alcance das suas arquitecturas, avançando num estilo novo, desconhecido, introspectivo, metafísico, que ultrapassa não só o seu tempo estético, como antecipa algumas características da própria música do século XX.
Algumas referências históricas ajudam a compreender esta sucessão de percursos:
Em Maio de 1809 desaparece Joseph Haydn, um dos compositores mais proeminentes do chamado período clássico. Na sua longa vida de 77 anos conhece a adversidade e o sucesso. Do seu vasto legado, as obras para piano solo, as obras de câmara, as sinfonias, e as oratórias marcam de forma particularmente profunda a História da Música. Vinte e quatro ano mais velho, Haydn – então já considerado o compositor mais conhecido na Europa —, encontra-se com Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) por volta do ano de 1784. Apesar da diferença de gerações, a amizade e admiração recíprocas ficam registadas em vários relatos de encontros e momentos de convívio, e ainda em comentários escritos pelos próprios. Em 1793, Haydn aceita como seu aluno Ludwig van Beethoven (1770-1827), e, ultrapassadas algumas dificuldades de relacionamento, o bom entendimento permanece até 1809, sendo reconhecida a admiração de Haydn pelas composições de Beethoven. Estes três compositores formam aquilo que é conhecido hoje como a 1.ª Escola de Viena, referência histórica da música de estilo clássico. Em Fevereiro de 1809 nasce em Hamburgo Felix Mendelssohn, futuro pianista, director de orquestra, e compositor cuja criatividade fica bem patente na sua extensa produção. Revelando-se como criança-prodígio, desde cedo sofre a influência da música de Johann Sebastian Bach (1685-1750), Beethoven e Mozart, escrevendo as suas primeiras sinfonias aos 12 anos de idade, momento em que conhece Goethe com quem manterá um relacionamento que nos anos vindouros o influenciará fortemente. Nos seus anos de estudo na Universidade de Berlim (1826-1829) assiste a conferências sobre Estética proferidas por Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), visita frequente de sua casa.
Iniciada a sua bem-sucedida carreira, esta inclui a visita a diferentes países europeus.
Torna-se famoso no seu país natal e em Inglaterra. O seu estilo único, descreve uma trajectória que reflecte simultaneamente a herança da escrita contrapontística do Barroco – Bach e Georg Friedrich Handel (1685-1759) – e a tradição das formas do período clássico – Mozart. A originalidade e o carácter romântico da sua música assinalam uma decisiva influência literária, e encontram-se sublinhados nas suas canções e peças para piano solo, bem como na música concertante, sinfónica e de câmara, e ainda nas oratórias.
Em 1808, um ano antes da morte de Haydn e o nascimento de Mendelssohn, Beethoven conclui as 5.ª e 6.ª Sinfonias. No ano seguinte, Carl Maria von Weber (1786-1826), um dos primeiros compositores reconhecidos como autores deste novo estilo romântico, contando já 25 anos de idade, ainda não tinha terminado a sua ópera romântica Silvana (1810), e teria ainda de esperar 12 anos pelo êxito da sua ópera Der Freischütz (1821), o qual iria consagrar esse novo ideal da ópera romântica alemã.
Franz Schubert (1797-1828), então com apenas 12 anos, para além de estudar piano, órgão, canto e violino, preparava-se para iniciar a composição das suas primeiras pequenas peças de música de câmara (1810). A sua primeira obra-prima surgiria cinco anos mais tarde com a canção para soprano e piano Gretchen am Spinnrade, com poema extraído da tragédia Faust – 1.ª parte (1806), 2.ª parte (1832) – de Goethe.
Nestes concertos, ao lado de nomes mais consagrados estarão alguns jovens intérpretes, em início de carreira, cujo talento é bem demonstrativo da certeza do enorme sucesso que os espera no futuro. Serão ainda lidos alguns textos e poemas ilustrativos de autores deste período histórico. Com a excepção do último concerto sinfónico, estes Concertos à Conversa... terão um convidado especial com quem se estabelecerão diálogos mais ou menos informais sobre os temas em foco com os próprios músicos executantes. No palco os músicos estarão enquadrados por dois sofás onde se sentarão os convidados.
A conversa entre os diferentes músicos e convidados permitirá uma visão relevante e aprofundada das contradições e motivações que de algum modo determinaram a criação de algumas das mais importantes obras musicais de todos os tempos, e que ainda hoje exercem uma especial atracção no grande público. Um fascínio certamente explicado pela natureza temática humanista e universalista que lhe potenciou o desenvolvimento.