Programa
Sonatas e Partitas para Violino Solo
JOHANN SEBASTIAN BACH Sonata n.º1 em Sol menor BWV1001
EUGÈNE YSAŸE Sonata n.º3 op.27
JOHANN SEBASTIAN BACH Partita n.º3 em Mi bemol maior BWV1006
EUGÈNE YSAŸE Sonata n.º 6 op.27
KIRILL TROUSSOV violino
Era o próprio J. S. Bach quem tocava as suas obras para violino. O domínio deste instrumento era, aliás, uma prática com raízes profundas na sua família e ele chegou mesmo a ser contratado como violinista da corte de Weimar com apenas dezoito anos, cargo que depois acumulou com o de cravista entre 1708 e 1717. Fossem obras de câmara ou com orquestra, era Bach o solista de serviço.
As Seis Sonatas e Partitas (BWV 1001-1006) foram escritas em 1720, conforme o autografo confirma, numa altura em que o compositor servia como Kapellmeister da corte de Cöthen e para a qual praticamente apenas escreveu música instrumental. O género não era novo na medida em que a escrita harmónica e polifónica para violino era já uma prática desenvolvida por compositores como H. I. F. Biber (1644-1704), J. P. von Westhoff (1656-1705) e J. J. Walther (1650-1717) embora destes, só o primeiro apresente uma produção que pode competir com a de Bach em termos de técnica e qualidade artística. O ambiente para que foram criadas relaciona-se, de um modo geral, com a prática musical concertística de salão em Cöthen contudo, no que às Sonatas diz respeito, o primeiro biografo do mestre alemão, J. N. Forkel (1749-1818), menciona, em 1802, a sua execução na igreja. O manuscrito das seis obras está arranjado de forma que cada Sonata seja seguida por uma Partita. Aquelas são organizadas em quatro andamentos, lento- rápido, lento rápido, agrupadas aos pares e em que cada introdução é seguida de uma fuga. Já as Partitas são suites de danças estilizadas. A denominação de partita refere-se, muito provavelmente, às duas colecções de suites para tecla que Johann Kuhnau (1660-1722), em 1689 e 1692 respectivamente, fez publicar como Neue Clavier-Übung, com sete Partien cada. Kuhnau era, de resto, uma grande influência para Bach e este tratará de o homenagear mais tarde,em 1726, com as Seis Partitas (BWV 825-30) escritas já em Leipzig onde sucedeu àquele como Kantor. Das Partitas para violino é normalmente salientada a “Chaconne”, o quinto andamento da Nº 2 como um exemplo maior de mestria e arte. A sua duração incrivelmente longa de 257 compassos é absolutamente coerente com a dimensão do climax que representa.
Ysaÿe foi um dos melhores violinistas do mundo entre as últimas décadas do séc. XIX e as primeiras do seguinte, altura em que a sua saúde começou a inapacitá-lo. Os compositores do seu tempo dedicaram-lhe várias obras que reflectem justamente esse reconhecimento e entre os quais se podem salientar os nomes de C. Franck, G. Fauré (1845-1924) e C. Debussy (1862-1918).
Assim como Bach, também esteve ao serviço de uma corte tendo-se tornado, a partir de 1913, o maestro da casa real da Bélgica, ainda antes da reputação internacional o levar a assumir a direcção da Orquestra Sinfónica de Cincinnati entre 1918 e 1922. A maioria das suas composições são para violino solo e conjunto de câmara, para além de algumas obras para violino e orquestra. Estas seis sonatas tiveram como ponto de partida a audição daquelas de Bach através de um concerto a que assistiu e que tinha como solista J. Szigeti (1892-1973) a quem, aliás, Ysaÿe dedica a primeira. Para além disso estas composições de 1924 relacionam-se com o ciclo de 1720 através de um conjunto de afinidades que se resumem no próprio número e também no estilo: O contorno melódico providenciado pela técnica empregue do contraponto, as passagens arpejadas e a utilização de acordes.
KIRILL TROUSSOV